Cinema

[Crítica] Até o Fim

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All-Is-Lost-Official-Poster

A sensação desesperadora de que tudo se findou, especialmente a esperança, é deveras desalentadora. O monólogo de Robert Redford dá vida ao solitário sujeito, que enfrenta a duras penas o isolamento em alto mar e que aos poucos, desconstrói a imagem de macho alfa que a própria carreira deste como ator, aos poucos construiu. O segundo filme de J. C. Chandor é bem mais intimista que o seu anterior (o "drama econômico" Margin Call - O Dia Antes do Fim), e com diversos signos visuais discute a resolução do homem e sua auto-suficiência.

Após um contêiner bater em sua embarcação, o homem tenta remediar o rombo que ficou em seu veículo, uma vez que era o único tripulante em sua embarcação. Nem as rugas, que evidenciam uma longa jornada já vivida e nem a perda de alguns dos possíveis contatos seus com o mundo civilizado - computadores, celulares, etc - fazem o sujeito parar ou esmorecer em sua busca por conserto, afinal, sua subsistência dependeria naturalmente disto. O modo com que ele se movimenta prioriza as ações comuns e subterfúgios mais fáceis, só que até esse planejamento se mostra falho.

Em poucos momentos o silêncio é cortado, são passados quase vinte minutos entre a primeira fala - uma confissão do Homem a qualquer alguém que ele perdeu ou perderá - e a segunda - uma transmissão de rádio não concluída por ele. O navegador em questão não é tão habilidoso, visto que diante de uma dificuldade ele lança mão de um manual de instruções para conseguir manejar a situação difícil que tem em mãos, ele representa o homem comum, que em busca de sobreviver às agruras da vida, acaba se alimentando de fórmulas mil e de listas que a priori o ajudariam a enfrentar com mais facilidade seus problemas cotidianos, mas que na prática, constituem-se máximas inúteis e que funcionam apenas no discurso. Não existem soluções fáceis, e nenhum manual para superar a vivência e a experiência adquirida depois de tais fatos ocorridos.

A lente de Chandor flagra todo o desespero do rosto presente nas expressões impingidas pelo veterano ator. O naufrágio iminente pode ser usado como alegoria para inúmeras questões comuns a vida do homem: velhice, condições de saúde precárias, morte anunciada. A fotografia de Frank G. DeMarco e Peter Zuccarini ajuda muito a aumentar a expectativa do público em saber qual será o destino do seu herói. A câmera é trôpega e periquitante, como toda a trajetória do personagem retratado em tela, ela emula toda a dificuldade que o sujeito tem em manter-se vivo.

O mesmo mar revolto, antagonista da jornada do Homem, pode ser palco de exibições sublimes, de pequenas e inofensivas criaturas marinhas, incapazes de fazer qualquer coisa que não embelezar a paisagem.

A experiência de All is Lost é muito melhor vivenciada quando se faz no ambiente do espaço cinema, onde a ausência de luz e de ações externas permitem ao espectador mergulhar fundo na história contada. Desse modo a empatia pelos dramas vividos pelo personagem de Redford tornam-se mais profundas e a identificação torna-se maior. A possibilidade de escapar através da intervenção de uma outra embarcação, maior e mais carregada de significados é frustrada, mas, uma vez se refutando as respostas usadas pelo senso comum, o homem está inexoravelmente só.

O homem, ao tentar atingir os seus iguais, que estão em melhores condições, se farta da insistência e decide despedir-se daquela situação. A carta redigida representa o adeus resignado, a antiga fome pela vida dá lugar a irremediável conformidade, ainda que ainda lhe sobre um pouco de esperança, lá no fundo. A sua última tentativa de chamar a atenção dos "grandes" acaba por dar muito errado. Subjugado por dois elementos básicos da natureza, o Homem sucumbe, graças ao seu isolamento, só conseguindo emergir de volta à vida depois de angariar o auxílio de outros. All is Lost é um estudo sobre o presente, sobre o quão cega pode ser a percepção de quem está em uma posição privilegiada a respeito dos que estão necessitados e sobre o quão devastadora pode ser a presença da soledade na vida do homem. O esforço e esmero de Redford e Chandor é muitíssimo recompensado, trazendo à luz um filme reflexivo e profundo, sem abrir mão da simplicidade.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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