[Crítica] Até O Último Homem

O drama de guerra dirigido por Mel Gibson não poderia começar por outra fala que não uma passagem bíblica do livro de Isaías, capítulo 40, que faz relembrar muito do ideal religioso no qual grande parte dos alistados se apegam, em especial da personagem principal e biografado Desmond T. Doss (Andrew Garfield). O épico Até O Último Homem desconstrói a própria ideia de gênero de guerra, ao centralizar na historia do soldado contrário à violência.

Gibson é didático, como havia sido em Coração Valente e A Paixão de Cristo. A passagem que marca o ideal do jovem ocorre na infância, quando em uma inocente briga com seu irmão, o protagonista acaba por quase mata-lo, sob os olhos de seu velho e rígido pai (Hugo Weaving). Após refletir sobre seu passado, o rapaz se alista nas forças armadas, com a missão pessoal de resgate de sobreviventes e cura de feridos.

Uma parte da jornada faz paralelos com outros tantos clássicos do gênero, em especial Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick, no que diz respeito a não aceitação do grupo militar com Desmond, por conta de sua postura em relação a guerra. O filme possui alguns períodos complicados quanto ao ritmo, e especial na primeira hora de duração, onde se discute a desobediência da personagem e o julgamento em torno de seu comportamento. O ideal e a motivação acabam sendo justificados neste primeira metade.

Já na metade final, o cineasta põe em prática a marca registrada de seu cinema, que é a violência mostrada de forma crua e visceral. As dilacerações de corpos, os cadáveres expostos e o uso da imagem para mostrar o lado sujo da guerra são impressionantes, em muito superiores ao visto em Apocalypto e Coração Valente. Esses momentos gráficos e viscerais corroboram com o discurso de Desmond trabalhado na metade inicial, dando razão ao texto da personagem por meio de imagens.

O texto de Robert Schenkkan e Andrew Knight discorre sobre as faces cruéis da guerra, valorizando as ações do protagonista, mostrando neste plano tudo o que O Invencível, de Angelina Jolie tentou mas que não obteve êxito – quanto na demonstração da guerra em ambos os lados, com referencias a Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, envolvendo cenas com os inimigos asiáticos.

Gibson está longe de acertar tudo o que tenta, mas apresenta um produto final simples, conciso e econômico, como os bons filmes de guerra de Eastwood, cuja direção pontual é menos grandiloquente   e mais preocupada em contar a história de um herói nacional do que apresentar um filme pretensioso, e tal apresentação só é tão bem sucedida graças as nuances que Garfield empresta a figura antiviolência de sua personagem. Segundo esses preceitos, Até O Último Homem é o típico filme inspirador que o público, a crítica e a academia costumam abraçar, sendo até mesmo surpreendente o quão baixa é a carga melodramática do longa-metragem.