[Crítica] Atômica

David Leitch sempre foi um operário do cinema, que funcionava normalmente nos bastidores. Dublê, ator e treinador/coreógrafo de luta, seus trabalhos incluem Clube da Luta, Buffy: A Caça-Vampiros e Matrix Reloaded, onde trabalharia com Keanu Reeves e Chad Stahelski, seus parceiros em De Volta Ao Jogo. Leitch co-dirigiu o primeiro filme de John Wick mas não pode ser creditado, e agora, traz à luz seu primeiro longa-metragem realizado de maneira solo, Atômica (baseado na graphic novel de Antony Johnston e Sam Hart), que guarda muitas semelhanças com seu outro filme, ainda que tenha ambições maiores e diferenciadas das de Stahelski.

As primeiras cenas em que a agente da MI6 Lorraine Broughton aparece são de uma beleza estonteante. A intérprete Charlize Theron exibe não só formosura mas também uma entrega corporal e sentimental enorme. A atriz se prepara para prestar um relatório e contar sobre uma missão que executou no ano de 1989, entre a Berlim Oriental e Ocidental, no epicentro da Guerra Fria. Esse início já estabelece tudo o que o espectador precisa saber: o mundo está em guerra não declarada, essa é a era dos espiões e não há possibilidade de confiar cegamente em momento algum, nem para Lorraine, nem para qualquer outro sujeito.

Filmes de ação protagonizados por mulheres não são novidades. O Quinto Elemento e a franquia de seis filmes Resident Evil tinham como chamariz a performance de Milla Jojovich. Zoe Saldana também se tornou uma heroína de ação contumaz, e a própria Charlize havia executado alguns papéis, seja no péssimo Aeon Flux, ou no recente sucesso Mad Max: Estrada da Fúria. No entanto, thrillers de espionagem com personagens femininas não é algo que estamos mais habituados a ver, ainda mais um com caráter tão visceral e violento quanto Atômica. De certa forma, o longa reúne os momentos épicos de John Wick: Um Novo Dia Para Matar e da trilogia Bourne, em especial A Supremacia Bourne, que conseguiu equilibrar bem um subtexto de bastante importância com momentos de ação frenética.

Os personagens são bem desenvolvidos, ainda que muitas dessas participações sejam pequenas. Os personagens de James McAvoy e Sofia Boutella são ótimos exemplos desse desenvolvimento. No entanto, é no apuro visual que mora o maior dos méritos do filme, que traz a luz lutas frenéticas e intensas. Os golpes secos desferidos e recebidos por Lorraine são de uma plasticidade e realidade poucas vezes vistos, mostrando que Leitch tem bastante similaridade com o trabalho de Stahelski, com segmentos tão inspirados quantos os de seu amigo e parceiro.

Todo o alarde ao redor de Atômica prova-se certeiro. O filme é econômico em explorações dramáticas e prossegue grave no que se propõe a discutir, apesar de haver ali claramente uma ideia bastante idealizada do conflito polarizado no fim da Guerra Fria. Theron está impecável na personagem que entrega e a empatia com o espectador é intensa e imediata, visto que sua jornada, apesar de super-heroica, encontra paralelos com problemas universais. Há uma expectativa muito positiva em relação a Deadpool 2 e aos demais trabalhos autorais de Leitch.

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