Crítica | Azougue Nazaré

Umas das belíssimas surpresas dos circuitos de festivais esse ano, passando pelo Festival do Rio e pela Janela de Cinema de Pernambuco, Azouque Nazaré é o filme de Tiago Melo, que após produzir Aquarius, Santo Daime O Império da Floresta, Boi Neon e ser assistente de direção de Quase Samba, decide enfim dar vazão e retornar ao seu próprio cinema, através de uma história sentimental e contada por meio de anedotas que causam graça e frescor em quem as assiste

O tempo inteiro os cantos e espiritualidade são soberanos, incluindo aí alguns diálogos. As músicas repentistas e os batuque do maracatu dão a tônica e o que se vê com os personagens desse micro universo é um flerte com o sobrenatural, sem deixar de ser simples e pés no chão. Esses cantos, roupas e ritos tem proximidade do Maracatu, e através do personagem Catita (Valmir de Côco) se discute um pouco da religiosidade e misticismo do brasileiro, que sem muito esforço, consegue variar rapidamente e ter a crença em religiões espíritas e a prática do evangelho neo pentecostal.

A maior parte do humor do roteiro de Melo e Jerônimo Lemos mora nos eventos simples e cotidianos, nas brigas que ocorrem no meio da janta, onde marido e mulher discordam de como empregar seu tempo e dinheiro, e claro mora também na crítica a postura muitas vezes agressivas de alguns sacerdotes, que tentam empurrar seu conjunto de crenças para qualquer pessoa que os ouça, como o ocorre com o pastor, interpretado pelo Mestre Barachinha. O pastor e o protagonista tem uma conversa peculiar e que resume toda essa inteiração, com o religioso perguntando se o sujeito já aceitou Jesus e o homem respondendo Eu nunca fui contra ele. sendo sincero e completamente espontâneo no sentido de não encontrar necessidade de mudar seu estilo de vida.

Evidentemente que isso não é o suficiente e ainda nos tempos modernos o método de boa parte das igrejas é o de tentar manipular o povo prometendo para os que não aderirem, a danação eterna, mas o filme não demora a confrontar essa postura, seja mostrando a hipocrisia do pastor, que se aproveita da ignorância alheia para cumprir uma anedota que ficou muito conhecida no Brasil (tanto que que virou meme) a respeito da confusão da palavra adúltera e adultera no livro bíblico de Oséias, assim como no confronto que Catita tem com a força religiosa, finalmente se impondo, como deveria já ter feito muito antes, assumindo a sua própria identidade, há muito tempo buscada mesmo sempre estando tão perto dele.

Azougue Nazaré é lúdico, engraçado e simples, apesar de não ser simplório e nem se apegar demais aos clichês que se utiliza. Melo não nega suas origens, tampouco tem receio de parecer parte do movimento pernambucano de cinema que já tem expoentes como Cláudio Assis, Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro, e mesmo não tendo ainda tantas obras se nota uma sofisticação de linguagem, sensibilidade e principalmente potencial para evoluir para um cinema ainda mais pungente e criativo.

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