Crítica | A Balada de Narayama (1958)

A Balada de Narayama

“Os olhos são cegos: É preciso buscar com o coração.” – O Pequeno Príncipe.

O Cinema quis ser pintor a partir de O Gabinete do Dr. Caligari, mas não se achou bom o bastante. Voltou correndo para casa, para o quarto, e lá se trancou até a realização de um de seus melhores ensejos: A Balada de Narayama. Já não era mais um desejo, mas uma necessidade. A retina dos que vêem o mundo das cores e enxerga as cores do mundo agradece o esforço, ímpeto dos inconformados com o poder do preto e branco incomparável no ilimitado sensorial além-tela, palco, picadeiro ou vibração; no caso, moldura. Narayama é a paleta do Éden. No filme, apenas uma montanha é imprescindível para a história e a trama coexistirem em paz rumo ao clímax. Uma das poucas obras que é inerente à peneira dos valores qualitativos conjugados ao tempo, cuja saturação visual é a mesma que garante o espetáculo a olhos nus e extasiados em absoluto. Sobretudo, promove a garantia do que lhe é antônimo, ou seja, a rigidez da narrativa e a confiança que essa nos transmite, tamanho é o caráter irrevogável da alegoria apresentada. Torna-nos reféns da estética-da-ética ímpar da produção; de seus personagens complexos enquanto seres humanos normais; dos cenários externos, filmados como internos tal é a precisão cirúrgica dos planos cênicos. A intimidade obrigatória do olhar com as províncias japonesas caracteriza-se pela profundidade do foco imagético. Van Gogh gostaria de estar vivo para conferir esse filme – Yimou Zhang teve essa sorte.

O filme foi realizado por Keisuke Kinoshita, mestre de poucas incursões, contudo, suficientes. Pelo visto, o menos ainda era mais em 1958, quando o artista deixou de ser um ensaísta empolgado, não pela alma ou sequer pela mente humana, mas pelos impulsos e instintos que fazem a comunicação entre os dois polos, passando da maestria mencionada para a sabedoria e a segurança dignas das vidas que tratou de eternizar. É possível se pegar divagando o porquê, na mais pura filosofia de bar ou acadêmica. Não importa: ama-se e odeia a outra no limite da razão.

Pois há, lá fora, cérebros bem ordenados que se confundem nas vias do coração, e vice-versa. Na arte, no que pode ser chamado disso, é quase sempre memorável tal desequilíbrio de intenções, espécie de transa sem compasso. Tais como a Literatura tingida de Bosch; os sonetos Musicais contemporâneos de Bob Dylan; a interação total da Escultura corporal dos artistas de rua, as artes cooperam entre si em prol de um bem maior. Notável em Narayama é a simbiose delirante entre o Cinema e o Teatro.

Uma aliança acima do bem e do mal, do belo e do feio, do devido e do evitável, tal o perfeito casamento das forças de ambas as artes, tão opostas que sempre se atraem em vários alcances, mas raramente com os adjetivos “perfeito” e “duradouro” para consumar a união. Em A Balada de Narayama vidas são eternizadas, uma glória perpétua numa trama acerca da aceitação da morte, graças ao gatilho que dispara o mais nobre fazer artístico. Pleno, sóbrio e seguro.
Filmes que dispõem de singularidade própria são um fenômeno curioso, escasso no quarteirão do que é produzido ao longo do caminho, e principalmente, são um adendo de qualidade no cinema em geral e na filmografia (pouco conhecida) de Kinoshita, cineasta cuja estética de uso único da cor em seus filmes sofreu batalhas e redenções no decorrer de seu legado crítico. E então, quando as tonalidades das explosões dramáticas não mais fazem justiça, nem servem tampouco para conter a potência utópica que A Balada de Narayama merece ostentar, o poder policromático da obra audiovisual alcança uma atmosfera sobrenatural. No instante que voa além do cênico, do visual, do audível, do uso quase excessivo, extra diegético, de conteúdo emocional, ou de qualquer outra tentativa complementar, a obra se completa em si. Afinal, é uma obra de arte.