Crítica | Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

O filme começa com uma montagem cheia de clichês hollywoodianos, tendo início com os blockbusters recentes, depois dos anos 90 e 80 até chegar em Charles Chaplin, aludindo a toda a trajetória que o cinema teve do começo com os Irmãos Lumiere até hoje. O documentário conta a história de Alice Guy Blaché e se inicia na França, no começo dos experimentos dos Lumière, narrado por Jodie Foster.

A especialidade da cineasta Pamela B. Green é o trabalho na áreas de design gráfico, animação e pesquisa de filmagens de arquivo, e seu esforço documental começa pela árvore genealógica da sua biografada, mostrando o parentesco das pessoas ainda vivas e que prestaram ajuda a Green para montar esse quadro. Não demora a mostrar uma de suas primeiras obras, A Fada do Repolho (La Fée aux choux), de 1889, que por sua vez era uma refilmagem do mesmo filme rodado três anos antes e aqui já se nota uma diferença básica de seu trabalho em relação aos Lumière, pois ela investia em ficção enquanto os irmão faziam mais documentários.

Guy Blaché aparece no filme basicamente em duas entrevistas em vídeo, uma de 1957 e outra de 1964 que são diluídas e passam conforme a trajetória e jornada pessoal e de trabalho avançam. Bizarramente, a maioria das pessoas famosas que depõem, entre elas Peter Bogdanovich, Geena Davis, Patty Jenkins, entre outros, não fazem a menor ideia de quem seja a diretora e o maior trabalho do filme certamente é tentar entender o motivo dela ter sido apagada da história.

Alice sempre sonhou em ser atriz, mas foi proibida pelo pai de fazer teatro, e isso faz com que haja suspeita de que a mulher que protagoniza a maior parte dos seus filmes seja a própria. Segundo uma perícia feita para o documentário, há uma chance grande disso, ainda que o método utilizado não seja totalmente preciso. Além disso, o modo como ela gravava era bastante sofisticado para a época, por meio de uma pré-gravação dos sons de seus filmes.

Nos estudos de Sergei Eisenstein nota-se que ela influenciou o diretor soviético em seu modo de registrar. O termo Be Natural que dá nome ao filme era utilizado como lema nos sets, ela pedia que o elenco agisse de maneira realista. Entre os filmes estudados, há destaque para Esmeralda (La Esméralda, 1905), filme que adaptava O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo e que demorou a ser associado ao nome da diretora (os registros apontavam para um assistente de direção como realizador), há também uma versão da Paixão de Cristo (The Birth, the Life and the Death of Christ, 1906), um filme grandioso e o primeiro a ter mais de trinta minutos de tela. Um Tolo e Seu Dinheiro (A Fool and His Money, 1912), com Jamie Russell tinha o elenco totalmente formado por negros, em uma época em que geralmente brancos faziam black face e representavam os negros como seres caricatos e involuídos.

O documentário é longo e carece de um ritmo dinâmico, mas as razões que levaram a diretora a ser descreditada são muito bem explicitadas, em especial pela ignorância dos historiadores e autores de livros sobre a pré-história do cinema. O trabalho de Green é muito acertado ao buscar respostas sobre o que aconteceu com a figura da diretora.

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