[Crítica] Beasts Of No Nation

Beasts Of No Nation - Poster

Desde seu surgimento, a Netflix demonstra a intenção de modificar a concepção atual de recepção de conteúdos midiáticos, estabelecendo um novo padrão diferente do cinema e da televisão convencional. Após lançamentos bem-sucedidos de séries como Orange Is The New Black, House of Cards e de documentários como Virunga e The Square, a empresa realiza seu primeiro filme ficcional.

Orçado em seis milhões de dólares, Beasts Of Nation se baseia na obra do nigeriano Uzodinma Iweala, publicada no país em 2006 pela Nova Fronteira como Feras de Lugar Nenhum. Dirigido por Cary Joji Fukunaga, o roteiro também foi de responsabilidade do diretor. Nos últimos sete anos, esteve moldando a narrativa, portanto antes do sucesso da primeira temporada de True Detective. A coerência da obra se apresenta desde o título, que não especifica nenhum local aparente e não representa nenhuma nação. História que simboliza qualquer nação tomada por forças impositivas, sejam do governo ou de facções internas.

A jornada acompanha o jovem Agu (Abraham Attah), uma criança que vive em uma pequena vila africana em harmonia com a família. A princípio, é perceptível como a trama foge da concepção padrão da representação da África como um país miserável. Uma inserção de realidade cotidiana que cumpre a visão cinematográfica de muitas produções sobre o local. Em seu pequeno microcosmos, mesmo vivendo com dificuldade, Agu é feliz, e o ato inicial, quando rouba a carcaça da televisão do pai para brincar com amigos, comprova este equilíbrio. Após sua vila ser invadida por soldados, Agu se torna o único sobrevivente da família e, em fuga, é resgatado por um grupo de rebeldes cujo líder se autodenomina Comandante, sem nenhum nome além de sua patente, explicitando a desumanização da personagem.

O público reconhece a jornada por antecipação. A visão realista imposta em cena agudiza o drama do jovem. Diante de um cenário desolado e sem nenhuma outra alternativa, Agu sobrevive para manter-se vivo em uma jornada rumo ao inferno. Inserindo o público na visão do garoto, que narra em breves momentos a história, compreendemos seu sentimento em relação aos acontecimentos. A personagem compreende elementos base, como a repressão do governo, a intenção dos rebeldes, mas tais concepções nunca são aprofundadas e são coerentes com a mentalidade de uma criança arrancada de sua vida infantil, adaptando-se obrigatoriamente a um mundo adulto ao qual nenhuma criança pertence. Emancipado pela violência, Agu sobrevive. A inocência do garoto é violentada pela sociedade e pelo Comandante.

Interpretado por Idris Elba, ator que vem construindo aos poucos uma carreira de destaque no cinema americano, o Comandante é um personagem brutal que exala violência, tanto a personificação física como a truculência que o impede de enxergar a falha em suas táticas como possível guerrilheiro. Há uma cena que destaca seu deslocamento ao encontrar um binóculo roubado de um caminhão do exército e, mesmo sem saber manuseá-lo, ostenta o objeto com orgulho. Uma cena que simboliza um homem sem conhecimento, vivendo sob uma filosofia sem coesão além do império da ordem camuflado como um levante da população. Sobre ele reina a pretensa lei de que os homens locais devem assumir o poder, mesmo que não haja nenhum projeto para tal. Ainda que seja subordinado a um líder, é dono de suas próprias leis que resultam em um cenário agressivo, o qual eclode na violência e centraliza-se em Agu. O garoto, que outrora via o mundo por uma televisão invisível de sonhos, se transforma naquele incapaz de dormir devido à violência que foi obrigado a cometer.

A produção é um reflexo da realidade em estado puro. Se a ficção científica Distrito 9 era uma simbologia sobre o apartheid, executada de maneira brilhante Beasts of no Nation evita qualquer metáfora para concentrar-se no cerne primitivo do homem, desgastando qualquer construto filosófico e iluminista para desconstruir qualquer evolução em sociedade, evidenciando o lado primitivo do homem e a violência imposta com mais violência. Um drama ao qual se assiste aflito pela jornada e pela percepção do que o recorte apresentado em tela é um reflexo cru e vivo das bestas que andam soltas pelo mundo, ainda que tais bestas sejam provocadas pela mesma evolução humana que fundamentou leis e direitos humanos.

O longa foi lançado em 31 salas de cinema nos Estados Unidos, além de ser disponibilizado em streaming para assinantes da Netflix. Com um desempenho considerado fraco para os cinemas, a produção foi um sucesso, e nove dias após seu lançamento contabilizava três milhões de views somente na América do Norte, sendo que já havia sido visto em todos os 50 países que o sistema opera. Um sucesso que abre um novo caminho para produções além do circuito cinematográfico, demonstrando como a empresa foi pioneira em conceber produtos originais dentro de um novo sistema de mercado, que já conta com outras futuras produções originais prestes a estrear.