[Crítica] Ben-Hur (1959)

Ben hur 1959 1

Épico de extensa duração – 212 minutos – Ben Hur de William Wyler começa com uma abertura de seis minutos a fim de que seus espectadores se acomodassem antes do início do espetáculo, fator que já demonstra a ambiciosa intenção do longa em ser um evento para muito além do cinema convencional. Somente após doze minutos decorridos é declarado que este é um conto bíblico, originalmente escrito por Lew Wallace (autor do livro). A história é focada na intensa amizade/fraternidade do hebreu Judah Ben Hur (Charlton Heston) e Messala (Stephen Boyd), um típico tribuno romano. Ambos tinham um apreço incomensurável pelo outro apesar das óbvias diferenças entre seus povos, mas essa relação não sobrevive para sempre ao abismo ideológico travado entre o escravocrata e o servo, com o destino tratando de pôr os parceiros em lugares distintos.

Wyler não foi o primeiro a adaptar a história de Wallace, já havia ocorrido um curta metragem homônimo em 1907 e um longa em 1923. O primeiro arco de desventuras ocorre para o personagem título ao perceber que seu velho amigo lançará mão sobre os habitantes da Judéia, que liderados por Ben-Hur, pretendem finalmente atingir sua liberdade. O intuito de Messala é o de massacrar os pretensos independentes e convoca seu companheiro de infância para chacinar as chances de libertação de seu antigo povo, obviamente tendo seu requisito negado. A partir dali as posições de ambos seria bem distintas e o paradisíaco envolvimento emocional de ambos é freado.

Judah e Messala parecem muito mais que meros amigos neste inicio. A própria condução de cenas e troca de gracejos fazem lembrar um amor reprimido, que seria absolutamente comum em tempos de poderia romano, ainda que fosse completamente transgressor para os conservadores anos cinquenta do século XX, ainda mais em uma época de recém queda do macarthismo. A mensagem homo erótica nem pretende ser tão velada, ainda mais se observada atualmente e de certa forma torna todo o drama de rejeição de valores e de nacionalidade ainda mais lógica e intensa, uma vez que faz com que o poderoso oficial romano se sinta traído por seu confrade, irmão e possível amante não consumado.

Ben hur 1959 3

A condução que Wyler emprega é bastante semelhante ao que Cecil B. De Mille e David Lean faziam em seus filmes produtos, em especial Os Dez Mandamentos, lançado anteriormente também com Heston estrelando, e Lawrence da Arábia. Em comum, os três produtos tem cenários suntuosos e muito bem construídos, grandes impérios e um herói que sozinho enfrenta um tirano governo, em nome dos excluídos, exemplo que serviria de inspiração para inúmeros ícones tipicamente masculinos nos anos oitenta, como o John Rambo de Sylvester Stallone, Braddock de Chuck Norris e até os exploitations de Bruce Lee e demais astros orientais

A longa jornada de Judah envolve sua transformação em um escravo, fato que o ajuda a entender melhor o ponto de vista de seu povo, agora sem os privilégios de ser amigo dos poderosos, sem a dourada chancela sobre sua cabeça que o fazia ser mais que um mero mortal. Ao perceber infortúnios da fome, sede e da dor da chibata presente em instantes longos a bordo de um navio, o destino do homem novamente é voltado aos poderosos, tendo enfim a oportunidade de servir a Quintus Arrius (Jack Hawkins, em inspirada interpretação), um homem que é justo consigo, apesar da maldição que acompanha o herói.

Ben-Hur parece um homem predestinado ao sucesso, apesar de sua casta ser considerada inferior. Sobre si está a mesma benção que esteve sobre os baluartes bíblicos de José, que apesar de escravo no Egito foi um homem importante entre os poderosos, e claro Moisés, que foi criado no berço da civilização egípcia dominante. Mesmo quando em posição de competidor de bigas, sua colocação recebe privilégios, com carros mais potentes e o direito de usar seus próprios cavalos. Seus méritos são bons mas suas condições também o são, fato que o deixa num patamar bem diferente dos demais membros do seu povo, fator que faz fortalecer a ideia que já existe no inconsciente do público dos Estados Unidos, de que aos vitoriosos cabem benefícios exclusivos e mais ajuda do que os outros, sendo estes mais iguais do que o próximo.

O trabalho técnico em Ben-Hur é muito esmerado também nos efeitos visuais. As cenas com fundo verde soam mais naturais nesta que é uma produção do final dos anos cinquenta do que na maioria dos filmes de James Bond e nos suspenses hitchcockianos como Ladrão de Casaca e Intriga Internacional. O altíssimo orçamento da produção é muito bem empregado, não somente na reconstrução do período imperial romano, mas também nas excelentes sequências de corridas em bigas e na competente batalha marinha.

Ben hur 1959 4

O resgate da humildade e da serenidade vem após mais uma decepção do personagem titulo, rendendo sua crença ao pretenso Messias. A preocupação de Wyler em não mostrar o rosto da figura divina soa mais reverente do que a esmagadora maioria dos filmes baseados na mitologia judaico cristão.

A trilha de Miklós Rózsa é algo único e serviu de inspiração para quase todos os filmes épicos dali para frente e o mesmo ocorreu com o trabalho da figurinista Elizabeth Haffenden, que teve de comandar centenas de profissionais na construção das roupas das centenas de figurantes em tela.

O filme da MGM tem muitas semelhantes com o vindouro Spartacus, de Stanley Kubrick, ainda que seu final tenha um caráter bem diferente, muito mais otimista, em relação aos combalidos judeus que serviam aos imperativos romanos, tendo na figura mitológica do Cristo uma esperança de mudança. Mesmo esse apelo não soa demasiado melodramático ou tolamente gratuito, sendo Ben-Hur um bom exemplo de como uma história sobre uma figura religiosa pode ser bem enquadrada sem necessariamente ser focado nela. Até a pecha de filme épico é discutida, uma vez que o ato final faz menção a outro protagonismo, fazendo dele um produto abrangente e universal, fazendo jus aos múltiplos prêmios que concorreu e ganhou.