[Crítica] Ben-Hur (2016)

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O cinema é uma arte peculiar, que permite aos seus realizadores a possibilidade de sempre se reinventar, de expor ideias, técnicas e modos de registro novas. Na contramão desta condição, há a terrível exploração das refilmagens, que ganharam ainda mais popularidade nos últimos anos com a elevação do posto, uma vez que os antigos remakes eram normalmente relegados à condição de filme B e, hoje, são blockbuster. O filme de Timur Bekmambetov consegue ser um misto das duas classificações, com um orçamento astronômico e uma sofrível qualidade, semelhante aos filmes que imitam as produções mais caras.

Ben-Hur traz Jack Huston como seu personagem-título, o mesmo ator que ficou marcado por ser um ex-soldado deformado e mascarado em Boardwalk Empire. A sorte do intérprete não parece muito grande, uma vez que sua chance de brilhar ocorreu finalmente em um filme tão complicado e mal construído. A primeira hora do épico soa interessante: é explícita e deixa claro para o seu espectador as relações familiares e íntimas de Judah (Huston) e seu irmão adotivo Messala Severus (Toby Kebell, outro artista que precisa urgentemente rever seus projetos, a exemplo do fracasso em Quarteto Fantástico), estabelecendo ali que estes são nobres em meio a uma Judeia muito humilde.

Cada um dos fraternos tem sua própria versão de amor proibido, mas a atitude diante dessa condição é diferente, com Judah permanecendo em sua terra e o jovem romano tentando provar a si mesmo, e aos outros, que a péssima fama de sua família não corresponde à realidade. Esse pedaço em específico é inteligente em termos textuais, pois consegue deixar claro a relação entre a origem dos personagens – ambos perdidos entre mundo e ideologia – e o poder provindo do império romano, opressor, cruel e sedento por sangue. O grave problema começa nas viradas de roteiro.

O advento da figura de Jesus, vivido pelo brasileiro Rodrigo Santoro, é bastante atrapalhado. O ator não compromete na figura do Divino, mas a falta de sutileza em todos os seus discursos e atitude revelam uma dramaturgia de extrema pobreza, que passa a declinar ainda mais quando finalmente ocorre um conflito entre os eternos amigos. Apesar de justificar de modo mais detalhado os fatores que fizeram Ben-Hur se rebelar contra Roma, a condução dos fatos é terrível, apelando não só para clichês comuns aos filmes épicos, mas também seguindo uma série de eventos que não fazem qualquer sentido em termos de roteiro.

O exílio pelo qual o herói passa mostra-o como um homem predestinado, mas seus atos não condizem em momento nenhum com o de um homem que é escolhido por Deus para ser um herói. Hur, em vez de ser um homem honrado, é somente um vingador, um sujeito cego pela vontade de cometer uma revanche. Nem a adição do personagem de Ilderim (Morgan Freeman) consegue frear esse equívoco argumentativo.

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A construção da figura de mentor presente em Iderim é digna de nota por sua extrema falta de qualidade. Freeman consegue reunir o clichê do mentor invencível sem causa ou motivo algum, de benevolência infinita, de negro místico e de artigo ex machina, uma vez que ele tem penetração em todos os bastidores do Império. Surpreende que o mesmo não consiga trazer o Cesar magicamente até Jerusalém para assistir aos jogos e, claro, para matar o tirano. O sujeito consegue transitar até em meio a corridas de bigas, em um lugar onde só os escravos da coroa conseguiam penetrar, tendo as manhas para desviar inclusive dos corredores, mesmo sendo um homem de idade avançada. Nada que o cerca faz sentido.

Esta refilmagem de 2016 é reduzida, não só em relação ao tempo de duração quando comparada com o clássico de 1959, mas também em história e cinema. O argumento de Keith R. Clarke e John Ridley consegue piorar a cada passagem de tempo (e são muitas, ao longo dos 124 minutos de duração do filme) trazendo personagens que estariam supostamente mortos, para logo depois estas mesmas pessoas surgirem como amaldiçoadas, com um destino pior que a morte. Após todo o confronto entre os irmãos, o arrependimento de Judah é patético e gratuito, não há arco dramático que justifique a mudança de suas atitudes, e tampouco há justiça na reunião entre os entes no final.

A conclusão é tão digna de pena que se faz perguntar qual era o objetivo dos produtores e realizadores ao darem à luz um produto tão mal pensado e piegas quanto esta versão. Nem mesmo uma versão cega e tola da fé extrema justifica o conjunto de tropeços otimistas e irreais que a trama segue. Ao ver o Jesus de Santoro se entregando, Judah chorou e, vendo o resultado dessa adaptação de Lew Wallace, é a reação mais acertada mesmo, de lamento por tal ocorrência ter chegado ao grande público.