Crítica | Bloqueio

Bloqueio começa logo após um letreiro de informe em tela preta, com uma câmera que passa pelo para-brisa de um carro, emulando o mesmo trajeto que as boleias de caminhão sempre fazem. No caminho, placas pedindo intervenção militar e outras de louvor a ultradireita. O longa se foca na paralisação dos caminhoneiros ocorrida no primeiro semestre de 2018 e parte dele para traçar um panorama sobre uma boa parte da população brasileira mais simples, mostrando o que e como pensam política.

A obra de Victória Álvares e Quentin Delaroche pode até ser um filme politicamente enviesado, mas não ignora os lados ideologicamente opositores às pessoas que conduzem essa história, ao contrário, os trabalhadores falam abertamente sobre o que querem, suas reivindicações e ideias de como seria o futuro do país. Também se mostra os momentos de lazer dos caminhoneiros, fazendo churrasco em lugares improvisados, com gambiarras até nos chuveiros que por sua vezes estão atrelados a baldes. Quase tudo ali é improvisado.

Da parte dos que se manifestam, há muitos gritos de Fora Temer, mas a maioria se declara como possível votador das pautas de extrema-direita. Uma das lideranças, Marcos da Silva dos Santos, é bastante enfocado e é ele que em muitos momentos faz o meio de campo entre os caminhoneiros e outras figuras de autoridade, em especial as espirituais, pois muitos pastores estão ali presentes. Isso de certa forma conversa com o recente documentário Eleições, de Alice Riff, e com sua entrevista onde se fala sobre o papel das igrejas neopentecostais junto à população mais pobre. Num dos cultos de jejum e oração, um líder neopentecostal faz uma oração que é repetida pelo povo, como uma reza artificial e pré-fabricada, longe demais do ideal de se falar com Deus de maneira íntima. Há uma intenção clara de denunciar o quanto aquilo tudo parece falso.

Os debates entre movimentos de esquerda com os trabalhadores mostrado no filme está longe de ser de igual para igual, mas ainda assim há uma tentativa de diálogo, bastante sincera e isso vem de encontro a tentativa que a esquerda tem feito para tornar seu discurso mais palatável e menos acadêmico, de fácil entendimento, mas o processo é lento e mesmo nesse corte do filme se observa a rejeição por parte das pessoas mais simples. O processo de convencimento é lento e gradativo.

A falta de esperança e desolação são os responsáveis pelo pedido dos caminhoneiros por intervenção militar, para a maioria deles o exército ainda é uma instituição respeitada e capaz de auxiliá-los, estabelecendo a ordem para pavimentar o país de novo no rumo do progresso. Bloqueio fala sobre muita coisa e peca por ter somente um tom, mas seus temas fazem até esses equívocos não soarem tão graves.

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