Crítica | Boi de Lágrimas

Frederico Machado é um diretor brasileiro cuja filmografia é bom observar, o seu Lamparina de Aurora saiu em 2017, primeiro nos festivais pelo Brasil e depois em circuito nacional, ainda limitado, e não foi tão visto quanto merecia. Agora por janeiro, estréia seu novo filme, o experimental Boi de Lágrimas, um filme ainda mais curto, de apenas 53 minutos. Seu começo ocorre com uma tela preta, que de vez em quando é interrompida por imagens de pessoas simples batucando e festejando o carnaval, nas partes escuras, ouvem-se discursos libertários, de líderes mundiais, estrangeiros e brasileiros, onde se reivindica igualdade e se louva o proletariado.

As cenas posteriores ao inicio mostram formigas andando livremente, depois estão amontoadas, em torno do formigueiro, fortificando a ideia simbólica desse inseto como expressão do operário, que ao mesmo tempo conversa com quem é o público alvo, alem de denunciar de forma poética o tamanho que esse mesmo povo tem diante dos poderosos, como bichinhos pequenos e insignificantes capazes de morrerem com um pisão.

O elenco é formado basicamente por Hilter Frazão, Julia Frazão, Guilherme Verde e Rosa Ewerthon, e cada um deles tem alguma função extra, com um sendo preparados de elenco, outro cuidando da iluminação. Esse trabalho cooperativo parece ser uma das marcas da Lume Filmes.

A forma como a história se desenrola é bastante intimista, quase não se travam diálogos e os lamentos pelas perdas que o povo tem são sentidas na carne de cada um dos personagens, em seus lamentos em forma de canção ou pela simples contemplação das tragédias inerentes a vida. O cinema de Frederico habita um imaginário que não precisa de muito esforço para ser  entendido. Apesar de usar uma linguagem mais hermética e que normalmente agrada mais a nichos, não é difícil entender suas perspectivas e as entrelinhas que são pregadas, e isso é bastante necessário, ainda mais em se tratando de um filme que toca em pontos essenciais do cotidiano de todo brasileiro.

Boi de Lágrimas em alguns pontos utiliza demais de uma linguagem pouco compreensível para quem não está acostumado a um cinema mais viajandão, mas sua curta duração facilita a digestão de seu formato, além de ter obviamente um assunto muito caro as relações de trabalho atuais e a precariedade dos meios de produção tanto no presente como no futuro do país.

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