Crítica | Brincando nos Campos do Senhor

A busca e a conquista pela naturalidade das histórias cinematográficas é o mote que guiou o cineasta Hector Babenco no filme mais ambicioso de sua autoria, acerca da busca e da conquista de uma população “selvagem” por religiosos americanos infiltrados em uma comunidade indígena amazona. Através desse trabalho de catequização e imposição de um casal branco e evangélico, Babenco procura o efeito rústico e, como já mencionado, natural de filmar causas e consequências cuja forma no filme tem substancialmente a ver com toda a natureza ambiental ao redor, e com os próprios sentidos percebidos e subentendidos de Brincando nos Campos do Senhor.

Ao longo de quase três horas de exibição, fica difícil imaginar outro cineasta tão versátil e apaixonado pela arte que usufrui no comando da adaptação do romance de Peter Matthiessen, escritor modernista do século XX. Isso porque o argentino Babenco sempre ostentou uma fascinação antagônica e explícita com o Brasil, seus signos e ritos, fazendo com que o filme encarne e explore com força muitos dos ritos característicos dos índios que recebem seus colonizadores, de olhos de turista e blusa e vestido de algodão, com flechas e tacapes apontados para cima, sem intenção de ferir ninguém. Estimulados por tal recepção que, para os nativos, é instintiva (pelo menos enquanto os forasteiros não vão longe demais), o doutrinador casal Huben, seu filho criança e outros companheiros de aventura tentam fazer a diferença na região como se realmente fossem, para isso, os enviados oficiais de um Deus cristão.

Assim como aconteceu (de fato) no Brasil colonial, quando padres jesuítas envolvidos no drama dos escravos que eram livres antes da sua chegada não quiseram denunciar os índios mais rebeldes aos seus algozes portugueses, por já terem se apegado com seus valores, seu respeito e proteção com seu ecossistema, e a humanidade que os assassinos europeus não apresentavam, os Huben e o sociólogo Martin Quarrier empunham a missão que já se convenceram a completar, mas logo aprendem que civilizar aquela gente, seja pelo motivo que for, consiste em algo inatural, predador e custoso ao extremo – culminando na morte por doença de seu próprio filho, num desequilíbrio inevitável da aventura e na revolta que só cresce entre o casal, interpretados com maestria pelos veteranos John Lithgow e a maravilhosa Kathy Bates, cada vez mais perturbados não pelos imprevistos que ocorrem na terra que invadiram, mas pela própria petulância e magnitude do que eles foram fazer na mais plena vastidão amazônica.

Brincando nos Campos do Senhor traz à tona questões a respeito da própria natureza humana (traição, aceitação, humanização, desumanização), e no desenrolar destas tantas na história, o filme carrega por conseguinte muitas das virtudes e das vaidades do seu diretor, como a identidade visual inconfundível de Babenco, sempre recorrendo e integrando como parte inextrincável dos seus filmes à paletas mais barrocas e com cores mais pesadas, tornando a imagem densa e profunda, escondendo segredos e deixando aforismos para serem discutidos quando o filme acabar. Por outro lado, Babenco nunca foi muito bom com ritmo e fluidez narrativa, e aqui isso demanda um preço alto, tornando o filme longo sobretudo no seu terceiro ato que, se não merece ser chamado de interminável, é porque a direção de atores de Babenco e seu domínio da mise-en-scène são infalíveis, como sempre.

Porventura, se o passado para nosso finado argentino verde e amarelo é um fator inseparável da observação das coisas, qualquer coisa, nesse seu legítimo épico latino-americano, assim como Aguirre e Fitzcarraldo também o são para Werner Herzog, mas por outras razões igualmente nobres de se falar, para os colonizados o tempo age como um rio cujas margens são visíveis para quem faz daquela terra bem regada palco às suas gerações, tradições, deveres e desejos enraizados em seu habitat. O tempo aqui não existe, se existe ninguém liga, e o passado, tão glorificado por Babenco, se faz como hoje (e se depender dos “selvagens”, será o amanhã também), seguindo assim o fluxo do que é natural, e resistente. Esse talvez tenha sido o maior motivo para o cineasta adaptar o livro de Matthiessen, e se de fato foi, nós, enquanto público, ganhamos com isso uma verdadeira façanha em forma de filme.

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