[Crítica] Brüno

Bruno - poster

A potência do humor depende da surpresa. De uma quebra de expectativa que conduz o público ao riso após conduzi-lo a um caminho não previsto. Contar uma piada pela segunda vez para um mesmo grupo requer habilidade de seu narrador. Sem um elemento surpresa, parte do impacto é absorvido e os risos não são tão efusivos como na primeira vez.

Brüno é a piada contada pela segunda vez por Sacha Baron Cohen. Tentando evocar o mesmo humor do excelente Borat – O Segundo Repórter Mais Famoso do Cazaquistão, o comediante apresenta outro personagem excêntrico em um humor limítrofe entre o absurdo e o exagero, utilizando situações aparentemente reais como constrangimento para fazer rir.

A produção segue o mesmo estilo da história anterior, uma espécie de documentário sobre um personagem exagerado que busca ascensão na vida. Bruno, um homossexual repórter de moda, reconhecido em seu país natal, a Áustria, inicia uma jornada rumo ao estrelado nos Estados Unidos. Conforme fracassa em sua intenção, o jornalista procura alguma maneira de alcançar a fama. Espaço em que se desenvolvem as esquetes encenadas – ou não –, que funcionam como uma fraca linha narrativa.

Reconhecido por seu papel em Borat, Cohen teve dificuldades em gravar cenas dessa produção devido à falta de anonimato, sendo obrigado a se equilibrar entre o material que colocava o personagem fictício em situações reais e em outras encenações com atores (Borat teve somente um ato articulado e previamente combinado). Mais episódica do que a história do repórter do Cazaquistão, a trama carece de uma linha narrativa mínima e, por consequência, parece ainda mais superficial.

Impossível negar que Cohen se dedica aos papéis que cria. Entrega-se de corpo e espírito, e em entrevistas afirmou sobre o desgaste em interpretar uma outra pessoa diariamente. Isso sem contar o fato de que, como comediante, é sempre necessário superar-se devido à expectativa do público. Como personagem, o repórter gay representa a tradicional tipificação dada aos homossexuais na ficção. Um estereótipo afetado entre frases e roupas chamativas, como se esses elementos fossem taxativos. Por outro lado, o mesmo exagero poderia ser uma representação do quanto tudo que é diferente é visto com maus olhos pela sociedade. Uma reflexão que pode surgir no debate desta obra, desde que se saiba que a intenção primordial é o humor agressivo.

A sátira do comediante não é velada nem sutil, mas aguda e agressiva. Escancarando os preconceitos enraizados nos Estados Unidos como também ridicularizando aqueles que, a todo custo, buscam a fama sem nenhum talento de fato. Sua maneira cáustica de mostrar tais problemas é através do riso, do absurdo que deve ser alvo do riso. Mas o humor peculiar doura tanto a pílula do disparate que mais constrange do que faz rir.

A repetição de um mesmo estilo cômico provou falta de eficiência como material de riso. Tanto que, três anos depois, Cohen desenvolveu O Ditador como uma obra de ficção, tentando focar em uma história além da excentricidade e qualidade de suas interpretações. Com distanciamento, é perceptível que Borat foi uma espécie de experimento funcional que não pôde ser repetido pela falta de ineditismo, nem mesmo duplicado por conta de sua qualidade como mockumentary/comédia. Infelizmente, o comediante precisou reforçar a dose pela segunda vez nesta produção para compreender que a reiteração de uma piada é quase fatal para o humor.]

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