[Crítica] Cabra-Cega

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Toni Venturi retorna ao cinema político, após o documentário Velho – A História de Luís Carlos Prestes. O longa ficcional Cabra Cega analisa o período conturbado da Ditadura Militar no Brasil, através da vivência de dois jovens militantes da luta armada, Tiago (Leonardo Medeiros), um homem ferido que está alocado no apartamento de um simpatizante da causa, e Rosa (Débora Duboc), que era sua amiga de militância e passa a cuidar dele enquanto está foragido.

A questão agravante é que Tiago é um homem arredio e desconfiado, se tornando um completo grosseiro quando é minimamente contrariado, fator que faz perguntar se valeria a pena as gentilezas a ele empregadas por seus companheiros e camaradas. O roteiro se pauta basicamente na sensação de paranoia extrema e dos males do isolamento de Tiago, que não consegue se sentir minimamente bem ao ter de ficar encarcerado, vendo importantes quadros políticos da luta armada caírem um a um, como Lamarca, Marighella e Toledo.

A locação quase unificada do apartamento causa um sentimento de claustrofobia e sensação de aprisionamento no espectador, visando claro equipar o público ao personagem de Medeiros. Aos poucos, o espectador se enche desse lugar e busca uma fuga, como foi com o personagem principal. A compleição física digna de pena de Tiago é um marco visual do desespero dele, a representação física da entrega a não esperança.

A trilha sonora é inteligente e bem colocada, maximiza as sensações de perseguição e de extrema solidão. As músicas são muito boas, mas não são empregadas de modo gratuito, ao contrário, servem a trama ao invés de funcionar como muleta ou despiste para um texto fraco.O roteiro aliás é minimalista, sem gorduras, mostra todo o ideal dos pretensos revolucionário sem cair no didatismo. Cada personagem é impreterível para a trama, desde os citados, até o veterano Mateus (Jonas Bloch), que serve de mentor para o grupo, além de Pedro (Michel Bercovitch), dono do apartamento e alvo de muitas desconfianças.

A tensão presente nos instantes finais mistura sentimentos como paixão, volúpia e desconfiança em uma sequência que põe em cheque até os juramentos dos militantes em torno do viés revolucionário. A sensação de estar cercado é presente em toda a trama de Cabra Cega, mas é maximizada quando o longa está próximo de se encerrar, em um conjunto de cenas de evocam a necessidade de sair da estática da não política que era pregada aos jovens da época, mostrando que a resistência era o único caminho possível para quem tinha qualquer ligação com o progressismo ou simpatia pelo livre pensar, mesmo que essa atitude significasse a morte.