[Crítica] Cães Selvagens

A carreira de Paul Schrader mudou bastante nos últimos anos, deixando de lado os roteiros premiados que costumava escrever, como em Operação Yakuza, Taxi Driver e A Última Tentação de Cristo, para se dedicar mais a direção de filmes, sem necessariamente participar do texto. Foi assim nos recentemente criticados Vale do Pecado (The Canyons, como era conhecido) e Vingança ao Anoitecer.

Após a realização do último trabalho, o cineasta retomaria a parceria com Nicolas Cage, em mais um conto sobre a violência e o modo de vida tipicamente agressivo do americano médio. Cães Selvagens tem uma identidade visual própria, misturando a fotografia típica da televisão com cores gritantes, que remetem a filmografia de Wes Anderson, ainda que os temas aqui desenvolvidos sejam completamente diferentes daqueles abordados por Anderson.

Mad Dog, personagem de William Dafoe vive em uma casa cor de rosa, com sua esposa e filha obesas. Sua personagem costuma gastar seu tempo vendo o noticiário desinteressante dos canais abertos enquanto usa os intervalos para utilizar heroína. Após uma briga ocorrer, aquele momento surreal e irreal chega ao fim, como se o roteiro de Mathew Wilder explicitasse que, naquele mundo, não havia como se manter livre do caos.

Logo, o espectador é apresentado a Troy (Cage), após uma breve narração para situar o público no ambiente caótico que ocorre com ele, Mad Dog e Diesel (Christopher Matthew Cook), três ex-presidiários que tentam se adaptar novamente ao mundo livre.

A violência é louvada nos cenários propostos por Schrader, em uma clara referência aos filmes oitentistas de Martin Scorsese (parceiro comum de Schrader no passado), levando em conta uma visão renovada sobre os fenômenos americanos, como o visto em Vício Frenético, de Werner Herzog. Há um resgate também da marginalidade típica de outro filme com participação do realizador, Gigolô Americano, em especial no retrato pintado do ideal estadunidense descerebrado.

O desfecho do filme é psicodélico, espirituoso e até um pouco poético, sem descuidar de toda a estética de exploração da violêia, que por sua vez denuncia também a capacidade da crueldade, inconsequência e egoísmo do homem, pondo em cheque a questão da empatia mesmo entre as pessoas mais próximas. Nesse ponto, Cães Selvagens é um belo conto sobre urbanidade e sobre os porões da alma humana.