Cinema

[Crítica] Cala a Boca, Philip

Compartilhar

Cala a boca Philip - poster - Zeta Filmes

Ciente da capacidade de emitir ideias criativas e opiniões, o intelectual – seja ele um escritor, pensador político, entre outros – muitas vezes apoia seu trabalho criativo na reclusão como espaço para externalizar seus pensamentos no papel. Ao mesmo tempo que o desejo de comunicação é intrínseco, há um abismo entre seu bom trabalho profissional e o cotidiano que revela uma personalidade obtusa e, não raro, conflituosa com os próprios pensamentos.

Dirigido por Alex Ross Perry, cineasta sempre presente em festivais de cinema independente, Cala a Boca, Philip é uma destas representações conflituosas entre o autor e sua obra. Seu personagem-título é indigesto, refletindo um tipo de personalidade comum que transforma o trabalho criativo em uma ilusão superior. Autor prestes a lançar um segundo romance, Phillip Lewis (Jason Schwartzman) é um homem egocêntrico, convicto de seu brilhantismo, que não hesita em afastar qualquer relacionamento de sua vida, desde ex-namoradas e amigos, aos quais faz questão de expor sua raiva e agressão, até sua atual namorada (Elisabeth Ross), da qual se afasta cada vez mais. Sua narrativa é elogiada por um renomado escritor, Ike Zimmerman (Jonathan Pryce), e tais leituras marcam o início de uma amizade.

A obra, cujo roteiro também é assinado por Ross Perry, mantém a narrativa em off como uma semelhança à literatura, trazendo uma vertente descritiva sobre personagens e seus sentimentos além das imagens. A desconexão das relações atravessa todas as pessoas deste universo, não à toa todas relacionadas com a arte de alguma maneira: literária, fotográfica ou acadêmica.

O panorama estabelecido intenta destruir a visão positiva e adoradora que se tem popularmente a respeito de intelectuais. Mesmo geniais em sua obra artística, esses seriam falhos como qualquer outro ser humano, e sentem uma solidão inerente que nenhum de seus trabalhos é capaz de aplacar. No papel central, Jason Schwartzman mantém sua característica interpretação deslocada, funcional para um personagem que deixa a vida de lado ao se autointitular escritor. Seu personagem não é empático e reúne características comuns entre intelectuais, como a prepotência e o egocentrismo. Philip é incapaz de conviver com quem não compartilha seu sucesso e seu brilhantismo.

Mesmo com uma boa reflexão como argumento, o longa-metragem parece incompleto. Os dramas de cada personagem são apresentados com pouco desenvolvimento, retirando parte do fôlego da obra, que acaba caindo na mesma armadilha de seu protagonista: a pretensão de ser brilhante demais sem a consciência de sua própria limitação.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
Veja mais posts do Thiago
Compartilhar