[Crítica] Campo de Jogo

Campo de Jogo 1

O campo do Sampaio é palco de um campeonato muito menos suntuoso do que o certame abrigado em seu vizinho Maracanã em meados de 2014. Localizado no subúrbio carioca, montado com orçamento completamente diferente do mundial da FIFA, o campeonato anual de favelas conta com catorze times, devidamente registrados pelo documentarista Eryc Rocha, que mergulha na intimidade dos jogadores amadores e claro, em seu entorno, exibindo paixão, raça e suor no evento que marca a final do torneio.

O modo escolhido pelo diretor para retratar o jogo entre os times Geração e Juventude faz engrandecer os atletas, utilizando ângulos que se originam de baixo, tornando-os tão míticos quanto as figuras dos ídolos que se tornam estátuas. Outro enquadramento comumente usado envolve o andar dos jogadores em campo, com a câmera como espécie perseguidora dos passos dos atletas.

Campo de Jogo 3

A experiência visual proposta é visceral e emocionante, visa enquadrar o público dentro de todos os detalhes do jogo, sepultando o velho sofisma comumente usado para criticar o futebol, contrariando a máximo de que “é apenas um jogo”, mostrando preleções, concentrações, o brado e a bateria da torcida, unindo esses elementos aos esforços de quem entrará em campo.

A relação simbiótica entre time e torcedores, perdida há muito pela necessidade de modernizar o futebol profissional, não conhece fronteiras dentro do campeonato de comunidades carentes, abrindo espaço assim para um outro futebol, para uma tradição há muito esquecida.

A mistura do discurso simples, dos instrutores técnicos humildes, baseado na pura motivação repleta de frases lugar comum, dão lugar a cenas intimistas, que exalam uma poesia típica do classicismo de um futebol mais antigo e condizente com os anseios do povo. A ode de Eryc Rocha é a um público mais humilde, ao geraldino e arquibaldo, ao torcedor de radinho de pilha que tinha no coração unicamente a paixão por seu time ou por sua seleção, e que tinha na pelota de domingo a sua diversão garantida. Campo de Jogo é um filme tocante, mas também possui um caráter de denúncia e repúdio a elitização do esporte que sempre foi uma manifestação popular, fugindo de qualquer panfletarismo barato.