Crítica | Cemitério Maldito (1989)

A versão de Pet Sematary que Mary Lambert conduz, chamada no Brasil de Cemitério Maldito, se inicia mostrando o pequeno cemitério de animais, para logo depois cortar para uma cena com um caminhão em alta velocidade em uma pequena estrada. Uma premonição do que viria, e um resumo de onde se originaria o horror desse filme. O longa foca na família Creed, comandada pelo pai, Louis feito pelo péssimo Dale Midkiff.

Da família, a única mais centrada é Rachel (Denise Crosby) – incrivelmente é a mais perturbada no livro de King. O Louis de Midkiff é insensível e anestesiado, enquanto Ellie (Blaze Berdell) é a criança chata e insuportável, e o pequeno Gage (Miko Hughes) é o garotinho bonitinho e travesso. Mesmo o pequeno gato preto, Church, é estranho e arisco. A  pessoa mais real do longa é Judd, o vizinho feito por Fred Gwynne, conhecido por seu papel como Herman Munster em Família Monstro. O senhor Judd é o resumo do chamado à aventura, já ele que convida Ellie a ir no cemitério, e também enfrenta Rachel sobre a necessidade de conversar com as crianças sobre a morte.

A natureza do trabalho de Louis deveria ser mais voltado à pesquisa, afinal ele é médico em uma universidade, mas quando chega Viktor Pascow (Brad Greenquist), atropelado na estrada próxima à casa dos Creeds, ele não pode negar socorro. Essa primeira aparição de Pascow é muito boa, aterradora e fantástica, mas as outras são terríveis, além disso, o convencimento de Jud a Louis é estranho, pois ele nada explica, só sugere ao pai para que ludibrie sua filha. A dúvida que fica nesta versão é se Louis também é ateu, assim como no livro no livro, e como não há citações, acredita-se que isso não importa.

Lambert faz um trabalho técnico muito bom, os cenários são muito bem feitos, sobretudo o cemitério indígena, assim como o trabalho de maquiagem e figurino. O aspecto visual do gato Church após voltar do mundo dos mortos também é legal, e mal se nota que foram usados sete animais para desempenhar esse papel, aliás, a única cena em que Midkiff está bem é exatamente quando o animal reaparece, nervoso mais que o normal, com olhos amarelados.

Para um filme de baixo orçamento, Cemitério Maldito é muito bem feito, e fora um ou outro erro crasso, Stephen King tem um bom desempenho como roteirista de sua própria obra. O modo como um suicídio desencadeia a fala de Rachel sobre os traumas de seu passado é inteligente, e o encurtamento que o escritor faz ao reunir dois personagens em um é uma boa escolha narrativa, além do que as cenas com Zelda compõe um dos momentos mais assustadores do filme, em especial pelo desempenho de Andrew Hubatsek com a maquiagem fortíssima que usa. A descrição que Crosby faz desse tempo é ainda mais poderosa do que no original, e isso é muito, pois Cemitério é um dos melhores livros de King.

Na cena do acidente, Lambert acerta no que não mostra, deixando apenas o caminhão tombado, o sapatinho com sangue, fugindo do explícito. A mudança narrativa é positiva (não era assim no original) e o desempenho de Gwynne é bom demais para ser ignorado. O filme é violento quando se trata do passado, e as maquiagens e efeitos práticos funcionam muitíssimo bem, salvo as aparições de Pascow, que não funcionam sob nenhum aspecto.

Próximo de seu desfecho, a qualidade visual cai um pouco, nota-se que tudo que envolve Gage é artificial, tosca e mal montado, e até o stop motion soa datado, mas ainda assim há um certo charme. Cemitério Maldito peca menos que acerta, e em sua época, fez uma certa história por se tratar de um filme com pouco orçamento e que conseguia adaptar a aura de horror que King transcrevia em seus livros.

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