Crítica | Chega de Fiu Fiu

Realizado através de financiamento coletivo pelo Catarse, Chega de Fiu Fiu começa com uma tomada aérea sobre algumas cidades, acompanhado de vozes em off de mulheres descrevendo os tipos de assédio que sofreram. Isso dura aproximadamente cinco minutos. As diretoras Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, tratam de forma direta sobre o assunto do assédio e também da forma de abordagem masculina em relação às mulheres, através do depoimento de muitas entrevistadas, variando entre imagens de estúdio e outras gravadas pelas próprias.

Boa parte das entrevistadas falam sem aparecer falando, ou seja, com a narração já mencionada, possivelmente pela dificuldade de se falar sobre isso, e em alguns casos, até mesmo por questões de segurança, dependendo do conteúdo da fala. Até para denunciar algo corriqueiro a sociedade costuma tratar a mulher de maneira a excluir ela do diálogo, quando não, punindo-a.

A  conclusão que o texto do filme demonstra que a urbanidade não foi pensada na mulher e indiscutivelmente as entrevistadas estão certas, uma vez que as cidades não são pensadas para a segurança delas, ou para a infra-estrutura que elas se sintam seguras. A ideia de fragilidade inclui somente a parte de lazer da cidade para as mulheres, como bares, cinemas, teatros, e o bizarro é que as entrevistas mostram claramente que metade do proletariado era formado por mulheres, ao contrário do que toda a arquitetura urbana faz pensar, ao não levar em conta a quantidade de lugares na cidade onde existem pontos escuros onde tocaias são fáceis de acontecer, o mesmo pode ser dito da mentalidade de predação que boa parte dos assediadores e agressores têm, fazendo seus gracejos e violências quase sem atrapalhar sua rotina.

O velho clichê de “nem todo homem é assim” é desconstruído como ladainha graças as entrevistas. A ideia geral de que o masculino não causa receio na mulher é derrubada através do relato, repleto de exemplos, como a de uma mulher que estava sendo seguida por um carro que buzinava, e que teve ele estacionado a sua frente, e dali saia seu marido, que a chamava para dar-lhe uma carona. Sem saber quem ele era, quando viu ser um conhecido, se desfez em lágrimas de alívio por perceber que não seria forçada a fazer qualquer coisa contra sua vontade.

Boa parte das entrevistas são em transportes, na rua, ou seja, lugares onde esses assédios ocorrem tradicionalmente, e o fato de serem tantas e diversas mulheres entrevistadas dá um caráter universal a obra. Chega de Fiu Fiu é bem didático e de fácil compreensão. Não tenta recontar a historia ou ressignificar qualquer coisa, ao contrário, é bem fácil de entender a motivação de Kamanchek  e Frazão ao realizarem a obra.

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