Crítica | Christabel

Christabel, filme de Alex Levy Heller começa com uma pessoa correndo pelo campo, a noite, mas sua identidade só é revelada depois. Logo depois, um casal se despede, de maneira bastante apaixonada. A moça fica, enquanto o homem sai. A moça é Christabel, e é interpretada por Mila Fernandez, não demora muito e seu silencio a noite é cortado pelos gritos daquela primeira mulher, desamparada, dizendo que foi atacada por três homens que a rasgaram e fugiram. Essa é Geraldine, personagem de Lorena Castanheira, e ela é acolhida por Bela.

No dia seguinte, o pai da moça, o dono casa, Leonel (Julio Adrião) reclama de maneira turrona por sua filha ter recebido a outra mulher, o que não se sabe ao menos até esse momento é se o motivo dessa reclamação é preocupação com a sua herdeira ou só egoísmo seu, ou um misto das suas sensações. A família leva uma vida bem simples de trabalho no campo. Geraldine está tão mal que dorme mais de um dia, fato que incomoda o pai.

Aos poucos, as duas mulheres vão desenvolvendo uma relação amistosa, que é estremecida pela ação de Leonel, que ao observar a visitante se banhar, passa a ter idéias. Após uma noite, quando ele bebe aguardente, os dois dançam e isso causa obviamente um desconforto entre pai e filha, e o conflito cresce ali. Nota-se um ressentimento duplo, dela por receber só desprezo e dele por acreditar que a menina foi a culpada pela morte da mãe.

Nos arredores da casa surgem morcegos, animais esses que não pareciam estar ali antes, ligados ao motivo místico por trás da historia, mas mesmo esse motivo não é dado de graça e gratuitamente, tudo é montado e levado gradativamente, assim como a crescente da intimidade das duas mulheres, acontecendo bem aos poucos, se utilizando da paisagem interiorana e das fases do sol, que proporcionam cenários tão belos e naturais quanto os quadros surrealista, mérito esse de Vinicius Berger que assina a fotografia que foi premiada alguns festivais.

Christabel tem muitos sonhos, e em ambos sentidos das palavras. Os sonhos quando dorme se manifestam no sentido dela poder enfim seguir o destino que sempre quis, e os sonhos no sentido de ansiar algo se manifestam semelhantemente, desejando algo além de uma vida bucólica e simples no campo, em um lugar onde parece que a tempo não passa e onde parece não haver qualquer lastro de civilização, e são as conversas com Geraldine que mexem com esses dois aspectos e sentidos da palavra para Christabel.

Exceção pela parte nos bares ou nas casas/fazendas onde  tocam músicas (fato que evidentemente marca datas), o filme de Alex Levy poderia passar-se em qualquer tempo, este momento em próximo de Araguaia onde o amado de Christabel está – personagem de Alexandre Rodrigues – é o único que denuncia sua temporalidade, pois o restante do conto, poderia se passar em praticamente qualquer linha temporal brasileira.

O modo como Geraldine se move, seduzindo tudo e todos lembra a figura mitológica, chamada Súcubo ou succubus. Ela desconcentra Bela, faz o pai dar vazão aos seus desejos íntimos, variando entre o homem machista e o sujeito que finalmente vê alguém capaz de lhe despertar os anseios comuns a um homem saudável. Mas claramente, seu alvo é a personagem titulo, é fazer a menina se enxergar para além daquele cenário do campo.

A adaptação que o diretor/roteirista faz do conto de S.T. Coleridge (de 1816) é bem feita, em especial no tom de brasilidade escolhido, apesar de soar um pouco caricatural o cenário em alguns pontos, há momentos tocantes, engraçados e até em tom de denúncia ecológica, já que uma das idéias centrais do filme era que o cerrado estava morrendo. O modo se lida com os sonhos também é um ponto bem positivo.

Christabel não é um filme perfeito, é demasiado longo, tem alguns problemas e sua trilha ao mesmo tem que induz emoções, também faz o espectador sorrir por resgatar alguns sucessos do passado, mas é impossível não simpatizar com o longa, seja por suas anedotas, por seus personagens prosaicos ou pela descoberta de  novas facetas sexuais. Até a  sua contemplação e letargia tem função narrativa. Os momentos finais acabam sendo um poucos expositivos em um sequencia e dúbio na segunda, mas até em seus defeitos a obra de Alex Levy tem charme, sem falar que o desempenho das duas atrizes Fernandez e Castanheira é impressionante por soar muito natural e muito bela a entrega das duas.

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