[Crítica] Cidadão Boilesen

cidadao-boilesen-poster

O documentário começa usando a característica trilha de A Hora do Brasil, com imagens em preto e branco, que obviamente remetem ao passado, aos anos da época da “revolução” militar. O título do filme brinca com o clássico óbvio de Orson Welles, focando na persona do dinamarquês naturalizado brasileiro Henning Albert Boilesen. O início de sua trajetória é mostrado de forma lúdica, focando seus impressionantes feitos ainda na infância como ótimo aluno, esportista e futuro administrador. Ele veio morar no Brasil aos 22 anos, primeiro em São Paulo, depois no Rio de Janeiro.

Boilesen era conhecido por apreciar a miscigenação e o estilo de vida do brasileiro. Sua adaptação ao país não foi difícil, pois ele sentia prazer em estar no Brasil e viver como um legítimo nativo. Era um homem do povo, apaixonado pela nação que adotou e gostava de caipirinha, futebol, ouvia Chico Buarque. Sua afeição pela população era muito grande.

O filme se desenvolve destacando o medo que a população geral tinha de que João Goulart realizasse uma cubanização no Brasil, argumentado que é refutado por muitos dos entrevistados, entre eles o ex-presidente da república Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a desinformação causava medo nos donos de grandes empresas, entre eles Boilesen. O maior medo do estrangeiro era de que o socialismo se instaurasse no país e atrapalhasse o seu próprio desenvolvimento, retirando o seu ganha pão. O episódio é pródigo em mostrar a ação civil na instauração do regime e as articulações desenvolvidas para as ações ditatoriais. Henning frequentava sessões de tortura e tinha cadeira cativa, como em um camarote de um espetáculo cênico, e ajudava a articular o grupo Ultra, o qual prestou muitos serviços ao governo autoritário.

Há um esmero notório no roteiro que retrata a pessoa analisada, primeiro como uma figura simpática, para depois revelar toda sua participação dentro do órgão repressor. Um tempo demasiado é dedicado a explicar como o AI-5 mudou o cenário político, aumentando ainda mais a perseguição aos ditos subversivos, com destaque à criação da Operação Bandeirante (ou OBAN), que teria a função de ser o braço civil do exército brasileiro e operar como um centro de tortura. Para o jornalista Heitor Contreiras, a OBAN foi “a mais radical e mais cruel operação de repressão do regime militar brasileiro”. Seu poder incluía a possibilidade de prender, matar e torturar quem quisesse, e era composta por policiais militares e civis. Uma das lideranças do esquadrão era o Sargento Sergio Arantes Fleury, amigo pessoal de Boilesen. O modus operandi de Fleury incluía a caça de marginais e vagabundos, e ele levou tal modo de agir para a OBAN.

Era preciso o apoio de pessoas importantes na vida pública brasileira, e alguns dos empresário se tornaram chamarizes para outros investidores, sendo a figura mais notória e que mantinha relações diretas com os mandantes da Operação Bandeirantes Henning Boilesen. O cabeça pensante dentro do DOI-CODI é muitíssimo discutido e controverso. Por parte dos ex-militantes, o discurso predominante era de que ele fez parte de inúmeras sessões de tortura, e seria criador de uma máquina de choque chamada Pianola Boliesen; a questão era de que ele tinha prazer de ver os comunistas sendo punidos, sua figura era demonizada. Já nos registros oficiais, foi negada toda a associação dele com o DOI-CODI, e afirmavam que o seu assassinato teria sido encabeçado por Carlos Lamarca. O assassinato em questão é descrito como algo brutal e realizado com muita satisfação por parte dos militantes que executaram o presidente da Ultra. O termo utilizado pelos grupos MRT e ALN para o assassinato de Boilesen era “justiçamento”, que remete ao óbvio sentimento de findar a sua vida.

A impressão dos defensores do empresário era a de que ele foi um bode expiatório, segundo Henning Albert Júnior, filho do empresário. Ele sequer tinha ideologia o suficiente para exercer tal influência dentro da ditadura. A sensação que fica a posteriori é de predominância de figura nefasta de ajudante do regime. Em uma época em que os ânimos estavam tão aflorados, não havia como garantir neutralidade. A participação ou não de Henning não foi investigada a fundo, até porque a sua história contada poderia revelar o nome de tantos outros poderosos barões.

O trabalho de Chaim Litewski escolhe um lado, mas não ignora os argumentos contrários. O intuito é tentar tirar tal história do esquecimento, não ignorando as duas vertentes de pensamento. O filme ajuda a fomentar a discussão e sua importância varia tanto como algo de caráter curioso/informativo quanto como fonte de esclarecimento de uma das importantes figuras históricas do Brasil.