[Crítica] Cinquenta Tons Mais Escuros

Após o estrondoso sucesso de bilheteria de Cinquenta Tons de Cinza adaptação do primeiro best-seller de E.L. James, era evidente que sua continuação, Cinquenta Tons Mais Escuros, continuaria a arrebatar fãs para as salas de cinema. Assim, o filme dirigido por James Foley não seria nem de longe uma aposta no escuro. James assumiu o cargo após diferenças criativas entre a autora do livro e a diretora do primeiro filme, Sam Taylor-Johnson, e transformou o que deveria ser um filme erótico em uma espécie de suspense sem sal.

A história de Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) segue de onde parou em Cinquenta Tons de Cinza. Separados, Grey continua sua obsessão por Ana, a mulher sem-graça que teve a ousadia de lhe dizer “não” (por pouco tempo). Logo no início, Ana cede às investidas de Grey fazendo o “jogo-duro” mais previsível de todos os tempos. Christian demonstra ter sentimentos verdadeiros por ela, mesmo não conseguindo deixar pra trás seu lado sombrio. No jogo da sedução entre o casal, em nenhum momento o espectador duvida do que vem a seguir e toda a cafonice do filme anterior se repete. As cenas de sexo são tímidas, embora a ótima trilha sonora de Danny Elfman tente dar um tom mais sério e perigoso ao ato. Ana já está acostumada aos fetiches de Grey e, estando mais segura, faz com que a violência sado-masoquista não passe de uma transa corriqueira. Não existe aqui o despertar da novidade de outrora, apenas sexo rotineiro.

Em uma trama em que tudo ocorre dentro do esperado, Foley consegue achar lugar para um pouco de suspense, seja no flashback inicial mostrando a infância de Christian, seja na aparição perturbadora de uma estranha garota no quarto. A cena em que Ana encontra essa garota chega a ser tensa e pode até arrancar um susto, e seu desenrolar poderia ter dado outro rumo ao relacionamento do casal. Mas nada acontece, mesmo Ana descobrindo mais segredos da vida de Grey. O perigo de se relacionar com um psicopata é apenas um lampejo, que desaparece ao frequentar bailes de gala na alta sociedade. Aos poucos, Ana vai deixando de lado seu medo de ser apenas uma sombra de Grey (sem trocadilhos com o título original) e se assume como a alpinista social que realmente é, sempre dependendo do sucesso e prestígio de seu parceiro para conseguir se destacar.

Os momentos de tensão e perigo são facilmente resolvidos, tendo dois destaques bastante importantes. No primeiro, Anastasia sofre assédio sexual. O tema que renderia boas discussões sobre o papel do machismo na cultura do estupro é apenas vagamente explorado, e tudo se resolve com uns telefonemas. Num segundo momento de perigo, um grave acidente aéreo acaba levianamente bem, sem causar graves arranhões nas vítimas. A tensão que deveria percorrer as cenas a seguir não chega a parecer uma grande ameaça. Tudo acaba bem, sem grandes e reais perigos, mas com um gancho para o próximo filme que pode ou não ser finalmente um grande conflito a se resolver. Mas a julgar pela trama sem graça e previsível, tudo vai ficar bem de novo.

Cinquenta Tons Mais Escuros não funciona como soft porn, passa uma péssima mensagem para as mulheres e desperdiça grandes talentos, mas tem seu lado positivo: além de ser mais curto que o primeiro filme, apresenta algumas cenas de humor não-intencionais que podem arrancar alguns risos constrangedores.