Crítica | Cinzas Sem Glória

O filme de Stuart Heisler começa com uma bateria ao fundo, e pessoas marchando, enquanto isso ocorre, uma animação da suástica branca no fundo preto vai se montando ao compasso da marcha. Cinzas Sem Glória tem nome original Hitler, e ainda nessa introdução, há um destaque numa frase sua, de que moldaria o mundo segundo  sua imagem e semelhança, deturpando uma passagem bíblica, ou destruiria o mesmo através de seu  instinto predatório.

Lançado em 1962 e sem cores, a ideia é emular o cinema da época em que o Terceiro Reich se levantou. Heisler, através do roteiro de Sam Neuman faz um filme anti propagandista, com o Adolf Hitler de Richard Basehart bastante caricato, um sujeito autoritário e malvado por natureza. Ele humilha até seus parentes próximos, fato esse que suscita suspeitas a respeito de seu envolvimento com sua sobrinha.

A ideia do filme é mostrar que as autoridades não estão livres de fofoca, ao contrário, pois as luzes da ribalta fazem com que essas pessoas estejam no centro das atenções, além do que há um maniqueísmo exacerbado e um grande moralismo textual, que tenta associar signos incestuosos em uma figura que é historicamente tratada como vilã. O caráter sensacionalista é tão gritante que até descaracteriza um pouco o personagem-título, deixando-o tão distante da humanidade que mal se percebe o seu poder de convencimento.

As partes em que Adolf é  mais emocional, é ao perceber que perdeu sua amada sobrinha, ali se sepulta qualquer  possibilidade de dualidade, com ele praticamente assumindo seu lado lascivo e anti cristão. A cena em que acontece o assassinato da mesma também é mal construída, com um suspense forçado e anti climático, quase um anti Hitchcock.

O filme referencia a historia famosa que inspirou o filme de Bryan Singer, Operação Valquiria, embora coloque esse atentado como somente um dos percalços pelos quais Hitler passou. A realidade é que o filme por se prestar a ser somente um panfleto anti hitlerista não consegue traçar a complexidade proveniente da época, nem o quanto o discurso nazi-fascista se tornou atraente a boa parte do povo, sobretudo a elite.

A partir do momento que se demoniza o opositor, se perde boa parte da ideia de chocar as pessoas, pois se Hitler e seus asseclas eram servos do inferno ou o puro mal, se impessoaliza a crítica, tornando desumana a ideologia, quando a realidade é que a sociedade abraçou o discurso do austríaco. Ao final, os corpos de Adolf e Eva são queimados, o  nome nacional Cinzas Sem Gloria se justifica, pontuado por uma narração péssima, que termina de lidar com o personagem como apenas um sujeito escroque, tal qual um vilão de desenho animado, ao menos dá para notar como o cinema britânico-estadunidense vi o fuhrer à época dos anos sessenta e como a opinião pública digeriu essa figura difícil de engolir.

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