[Crítica] Clarisse Ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

Longa-metragem do diretor cearense Petrus Cariry, Clarrisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois é mais um exercício de naturalismo do cinema moderno brasileiro usando como representante da angústia e letargia a personagem título, vivida por Sabrina Greve. Não há muitas explicações sobre o estado de espírito das pessoas retratadas em tela, as primeiras cenas mostram a explosão de uma pedreira e o ambiente árido que a cerca, além de flagrar a rotina de Clarisse e seu marido, em uma cena de relação sexual em que somente uma das partes parece sentir prazer.

Não há necessidade de longas discussões ou explicações para o estado depressivo de Clarisse, suas expressões e atitudes falam por si só. O distanciamento entre ela e seu marido, Joseph (David Wendefil) se nota pela clara falta de olhares entre ambos, e pelo silêncio que ela insiste em manter mesmo quando a palavra é dirigida diretamente a ela. Pouco se ouve sua voz nas interações que tem com outros personagens, mesmo quando ela encontra seu pai, Samuel (Everaldo Pontes).

A solidão parece ser a maior companhia de Clarisse, bem como o incômodo de ter que viver sua rotina. Sua inquietude ganha contornos dramáticos bastante sérios com um pouco mais de meia hora de filme, em cenas que apresentam um gore moderado e que evocam a finitude da sua própria existência.

A segunda metade do filme se dedica a estudar o desânimo da mulher, mergulhando em sua melancolia intensa, não permitindo qualquer sensação por parte do público que não seja a de pavor em compartilhar com ela as terríveis sensações que habitam a alma da personagem. Nesses momentos há uma apropriação de temática de filmes de terror, ainda que no longa o lirismo superabunde sobre a sensação de susto ou de medo, valorizando ainda mais a angústia da mulher. O fato de não explicitar qual é o motivo dela se sentir tão mal ajuda a universalizar a situação dela, podendo os eventos serem comparados com qualquer outra situação cotidiana, em especial no mundo comum às mulheres.

As cenas finais guardam momentos de intimidade da personagem, com as imagens mais uma vez brincando com a água. Até então, as cenas introspectivas mostravam uma inflexão de alma e espírito para a solidão de Clarisse, e após algumas perdas, finalmente ela tem uma catarse, em uma cena violenta, sexual e visceral, próxima aos créditos finais, onde o espírito dela finalmente se livra de seus próprios grilhões, em uma sede praticamente insaciável por agressividade e por satisfação de libido. A poesia que Petrus propõe em seu longa, ainda que evoque um caráter universal, o texto tem si um traço poético muito sentimental e bastante pessoal, resultando em um experimento muito potente artisticamente e sensível, compondo então uma obra de arte de surpreendente delicadeza.

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