Crítica | Columbus

O cinema tem entre tantas outras facetas, o poder de retratar vida. Inclusive, revisitar essas histórias é como reviver todos esses sentimentos como se fosse a primeira vez. Columbus é um desses fragmentos, um tão sensível, cru e imersivo que no meio de tantos planos estáticos soa tão vivo quanto a dose de realidade que injeta em quem o assiste.

Difícil classificar o protagonista desse longa de estreia de Kogonada, Haley Lu Richardson é Casey, uma jovem adulta que trabalha na biblioteca e divide seu tempo extra vivendo com a mãe e se aprofundando em arquitetura, John Cho e seu Jin é um tradutor bem-sucedido que precisa retornar a cidade Columbus  para cuidar do seu pai arquiteto que entrou em coma. E enquanto esses dois personagens se conhecem nas ruas de Columbus, a cidade-título aflora como uma terceira protagonista simétrica e carregada de significados.

Kogonada comanda o filme de forma paciente e claramente sã, o diretor e roteirista que também é o montador do filme, molda Columbus sem uma única ponta fora do lugar, os diálogos corriqueiros parecem ter sido retirados de uma longa e única conversa por soar linear e objetivo,  os planos são abertos e propensos ao espaço, se no primeiro plano quase sempre temos Casey e Jin, observa-se que ao fundo a cidade de Columbus participa com sua arquitetura modernista. Com imagens tão bem pensadas, quase sempre contemplativas – em alguns momentos chave Kogonada dá oportunidade para as paredes falarem, como quando duas grandes estruturas suspensas se apontam e o espaço entre elas evidencia uma grande temática do longa, o distanciamento -, a trilha-sonora bem dosada e seu texto emergente, o longa chega ao fim com a sensação de obra finalizada.

Essa construção sensível que Kogonada faz dessa história tem camadas nobres, durante as conversas sobre arquitetura que as personagens de Haley Lu e John Cho têm durante o segundo ato, escancara-se a profundidade ou a falta da mesma nas relações dos dois com seus pais, enquanto Casey ignora um possível distanciamento da mãe e faz si mesma acreditar que aquele é seu lugar – tendo a presença física da mãe e várias cenas em todo o filme -, Jin nunca recebeu muita atenção do pai e não gosta nem um pouco de estar na cidade, reconhecendo-se longe e fora de Columbus, tendo em si até um bloqueio pela própria arquitetura que o cerca desde a infância, e o rosto de seu pai, consequentemente, em uma escolha interessante do filme, nem aparece.

Cho entrega uma atuação surpreendente e tem em seus olhos o grande peso de seu trabalho, é neles que conhecemos o personagem, a maneira que olha para as coisas e como reagem ao falar de seu pai ou sobre a cidade. Haley brilha e nos mínimos e extremos entrega o mesmo nível de mensagem, principalmente na aparente frieza do final do filme. Certamente um elenco afiado e imerso, tão bem retratados em tela quanto nossa terceira protagonista Columbus, que se em ambientes rotineiros tem uma direção de arte simplória, esbanja arte e significado em grandes locações.

Kogonada estreia de maneira brilhante e faz de Columbus um filme sobre o peso das relações e até onde o carregamos, faz de sua locação uma grande personagem e de suas temáticas uma bela representação da vida como ela é, dura, inevitável e influenciada pelo externo. O diretor escreve uma carta de amor á arquitetura e termina seu filme assinando á todos aqueles que um dia já se distanciaram, á todos aqueles que já foram embora ou que um dia tiveram que voltar, assina dando frescor e estilo para o cinema independente americano, assina como se assina o projeto um prédio, de bases fortes e com espaço para todo mundo.

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