Crítica | Como Treinar Seu Dragão

Baseado livremente nos livros de Cressida Cowell, Como Treinar Seu Dragão é o primeiro filme de uma cine serie, dirigido por Dean DeBlois, Chris Sanders era a aposta da Dreamworks para competir na última década com os filmes da Disney e Pixar. A base da historia é mitologia e iconografia viking, onde o jovem Spantosicus Strondus III ou simplesmente Soluço (Jay Baruchel no original e no Brasil dublado por Gustavo Pereira) sonha em ganhar fama em sua aldeia, achando que o caminho mais fácil para isso seria matando um dragão, seres esses que atormentam o lugar onde moram, o problema é que ele não leva o menor jeito para isso, mesmo sendo filho de uma lenda, Stoico, o Imenso (Gerard Butler e na versão nacional Mauro Ramos) que e líder de Berk e um dos guerreiros mais ativos da aldeia.

A tradição dos Berk é de caçar dragões, e Soluço quer se tornar um bom caçador, mas ele além de não conseguir, é julgado por seu pai como frágil demais para conseguir tal feito. Ele monta uma armadilha e encontra lá um dragão negro, belo, e machucado, mas não tem coragem de matá-lo e dali começa uma estranha parceria, tão boa que o menino passa a usar os ensinamentos do dragão para ludibriar os outros monstros no treinamento comum.

Soluço passa a adestrar a besta, de maneira escondida obviamente, pois seria proibido. Astrid (America Ferrera e no Brasil por Luisa Palomanes), a menina por quem ele é apaixonado começa a suspeitar, mas o mundo dos adultos pouco se importa com isso. A questão é que as diferenças entre gerações são mostradas não só nos interesses mas no comportamento entre pais e filhos. Soluço é um menino que se sente desprezado por todos, sobretudo por seu pai, e ele encontra em uma figura controversa um alento, alguém com quem pode ser sentimental apesar do óbvio aspecto selvagem e o fato dele esconder essa relação pode ser encarado como um paralelo com diversos aspectos de discussões mais adultas, como segregação de diferentes.

Os aspectos visuais do filme são muito bem explorados, o lar dos dragões tem um vermelho muito vivido e  uma quantidade enorme dos monstros voadores circulando em torno da rainha, que os explora. Sem panfletar ou sem necessidade de lacrar o roteiro de DeBlois, Sanders e Will Davies mostra como uma casta explora outra e o quanto seres de discursos e linguagens diferentes mal julgam uns aos outros, isso tudo fortificado pela amizade de Soluço e Banguela.

O destaque de Soluço diante dos treinamentos não ocorre porque ele é ótimo em batalhas como seu pai, e sim porque ele, uma criança, tem uma compreensão mais madura e adulta que os velhos aldeões e caçadores, entendendo finalmente que a relação ideal entre os repteis alados e os homens, e mesmo após ele conseguir conter  os dragões, observado por seu pai e pelos outros anciões, a teimosia predatória dos guerreiros humanos segue, em mais um esforço tolo que visa provar a masculinidade tóxica dos personagens que se acham heroicos.

Pai e filho tem um discurso alinhado no final, ainda que não aconteça isso sem sacrifícios e sem  a ressignificação revisionista da relação entre homens e dragões, tudo bem que os animais se tornam pets, mas ao menos deixaram de ser objetos de caça de ódio, para receberem carinho a gratidão dos meninos e meninas, que claramente são mais exímios com os animais. Como Treinar Seu Dragão é uma animação simples, de excelência gráfica e com uma historia que desmonta paradigmas como foi nos sucessos maiores da Dreamworks, FormiguinhaZ, Shrek e Megamente, e ainda deu vazão a uma franquia que se preocupa em trazer boas historias, para muito alem do dever de só vender bonecos.

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