Cinema

Crítica | Conan: O Bárbaro

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O subgênero “espada e sandálias” durante muito tempo teve um lugar cativo em Hollywood. Quase que anualmente, uma grande produção pipocava nos cinemas, tais como Spartacus e Ben-Hur, respectivamente dirigidos pelo craques Stanley Kubrick e William Wyler, além de ambos os filmes terem o grande Kirk Douglas como protagonista. A partir da década de meados da década de 60, o subgênero foi se diluindo em meio às fortes influências. Porém, em 1982, estreava Conan: O Bárbaro, um genuíno exemplar do subgênero “espada e sandálias” e uma das melhores adaptações de histórias em quadrinhos.

Roteirizado por Oliver Stone e dirigido por John Millius, o filme adaptava os quadrinhos pulp escritos por Robert E. Howard. Entretanto, tirar o projeto do papel não foi moleza. Além do roteiro inicial de Stone descaracterizar por completo o personagem, situando-o em um futuro próximo e não em um passado distante como nas HQs, seu orçamento era proibitivo. Nesse momento então, o diretor John Millius embarcou na empreitada. De primeira providência, o diretor voltou à situar o filme em épocas remotas, além de seguir a linha característica do criador do personagem, colocando num grande caldeirão fortes influências das culturas europeias e asiáticas, elementos da Idade Média e Antiga, além de inspirações em Akira Kurosawa e filósofos como Friedrich Nietzsche. Essa mistura toda estabeleceu o clima místico, repleto de fantasia e sangue do filme, uma atmosfera que até hoje não conseguiu ser igualada.

De acordo com a sinopse oficial do filme, “para vingar a morte de seus pais, Conan (Arnold Schwarzenegger) enfrenta um perigoso feiticeiro em busca da Liga de Aço, que fará com que sua espada se torne invencível. Quando criança, Conan viu seus pais serem mortos na sua frente e seu povo massacrado. Criado em um campo de escravos, ele desenvolve uma enorme força física e se torna um gladiador. Mas Conan nunca esqueceu seu triste passado e está determinado a vingar o assassinato de sua família”.

O roteiro de Stone e Millius conta com um detalhado prólogo que apresenta as origens de Conan, desde sua infância – quando sua vila foi atacada pelo vilão Thulsa Doom e seus pais foram mortos de forma brutal – até chegar a vida adulta quando inicia a sua jornada em busca de vingança. Isso confere ao personagem uma profundidade surpreendente, tendo em vista que ótimas bases para futuras tramas e desenvolvimentos vão sendo edificadas. Nesse ponto, fica o lamento pelo personagem não ter ganhado uma saga à altura do que aqui é estabelecido.

O personagem assume um caráter ainda mais especial quando prestamos atenção na narração em off feita por Mako, intérprete de um mago que acompanha Conan em sua jornada. Toda uma mitologia é construída ao seu redor de forma gradual e sem atropelos, com o roteiro seguindo um ritmo bem cadenciado, mas sem se tornar lento demais. Entretanto, nem tudo são flores. Talvez por influência do lendário produtor italiano Dino de Laurentiis, conhecido pela grandiosidade de suas produções, o filme em certos momentos carrega demais nas tintas dramáticas, assumindo quase um caráter trash, tendo em vista que bacanais e canibalismo são mostrados exageradamente e cenas de combate por pouco não ficam engraçadas devido à quantidade absurda de sangue falso que aparece na tela. Além disso, o diretor se mostra perdido em alguns momentos da batalha final, imprimindo um caráter teatral que destoa do conjunto geral da obra.

Schwarzenegger, ainda um ilustre desconhecido batalhando pelo estrelato em Hollywood, era a escolha óbvia para o papel. O futuro governador da Califórnia começou a se preparar para o papel já em 1979 quando a pré-produção da película foi iniciada, deixando o cabelo crescer e voltando a se dedicar intensamente à sua forma física, tanto que em 1980 voltou a vencer o Mister Olympia depois de um hiato de 5 anos. Schwarza se mostraria perfeito para o papel, emprestando toda sua fisicalidade e se tornando uma presença magnética em tela. É um caso raro em que limitações dramatúrgicas se tornam uma qualidade. Seu Conan é uma força da natureza que age e reage, mas quando fala, mostra a dureza e a crueza de quem sofreu durante 15 anos na Roda da Dor. James Earl Jones se mostra uma ótima escolha para o papel do aterrorizante mago Thulsa Doom. Mesmo não sendo um titã atlético, Jones se mostra gigante em tela com sua voz imponente e sua postura, tornando memorável um papel inicialmente raso. O grande Max Von Sydow empresta sua competência e sua elegância de sempre ao seu Rei Osric, enquanto que Mako é um alívio cômico que tem uma divertida dinâmica com Conan, sem cair na caricatura ou ser desagradável. Quem também se destaca é Sandahl Bergman. Sua Valeria é praticamente uma versão feminina de Conan e a atriz também enche a tela com sua presença e fisicalidade. Um fato curioso é que não havia dublê feminina com a altura da atriz, 1 metro e 83 centímetros, o que obrigou que ela fizesse todas as suas cenas perigosas. Isso deixa sua atuação ainda mais convincente.

Enfim, embalado pela estupenda trilha sonora composta por Basil Poledouris, Conan: O Bárbaro é um filmaço que pode ser considerado um evento histórico, pois apresentou para o mundo o fantástico Arnold Schwarzenegger, estabeleceu a versão definitiva de Conan para as telonas já na primeira tacada e ainda é um grande exemplo de como uma história em quadrinhos pode ser adaptada sem que suas características principais não sejam desrespeitadas e seu protagonista seja plenamente compreendido.

Bernardo Mazzei

Advogado, mineiro, Flamengo até morrer, roqueiro doido, cinéfilo e recaído no vício em quadrinhos. Só chuta de trivela e sonha em trabalhar na polícia de Los Angeles pra poder gritar "LAPD! FREEZE, MUTHAFUCKA!".
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