Cinema

Crítica | Conflitos Internos

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Andrew Lau e Alan Mak realizaram Conflitos Internos, obra que aborda o tema da criminalidade organizada em Hong Kong e que geraria além de continuações, uma adaptação muito premiada de Martin Scorsese com Os Infiltrados e essa refilmagem de certa forma ofuscou este longa, ao menos para o ocidente. É curioso que a cena de abertura se dê com uma música instrumental bem forte, passando por imagens em animação CGI bastante datadas, que simbolizavam os Oito Infernos da mitologia local, mostrando lagos de fogo e enxofre, bem comuns a mitologia judaico cristã que predomina nas crenças ocidentais.

As cenas subsequentes dão conta de uma conversa entre marginais, pessoas que mesmo vivem fora da  lei ainda possuem alguma espiritualidade, de certa forma, emulando tanto a Cosa Nostra da família Corleone em O Poderoso Chefão, quanto o brasileiro Cidade de Deus, em que os traficantes cariocas rezam ao cristão, ou apelam para entidades afro brasileiras.

Em alguns momentos, o filme lembra a linguagem tipicamente televisiva de programas policiais, variando entre momentos de tensão extrema e outras humorística em um período bem curto entre eles. A trilha sonora também tem um estilo diferenciado, que varia entre  o típico das fitas de ação de Hong Kong e os filmes de ação dos EUA, e por mais que isso possa parecer genérico na descrição pura e simples, ao compor com as imagens de cenário, compõe um bom quadro, embora em boa parte das vezes, soe bastante intrusiva.

Ao mesmo tempo que a historia busca ser atemporal, dá para notar o quanto ela é calcada no seu tempo, seja nos cabelos descoloridos ou nos rabos de cavalo curtos dos bandidos, ou nos pôsteres de filmes americanos, com arte em mandarim que se vê nos cinemas onde reuniões secretas ocorrem.

O receio de ser pego, como infiltrado ou de ser encarado como traidor era um perigo real e iminente, agravado após a cena absurdamente bem pensada e bem feita do encontro no telhado e o destino do chefe policial, Chefe  Wong (Anthony Chau-Sang Wong). Por mais sentimental que possa parecer o desfecho dela, acompanhada de uma musical com notas melancólicas.

Lau e Mak conseguem apresentar uma obra seminal, de intrigas e mentiras, repleta de tensão, como cena que Sam (Eric Tsang) está depondo, pois o receio não é só dos que podem ser entregue, mas também dos que estão de fora do bunker onde há a confissão. A quantidade de personagens que interagem nessa sequencia é enorme, e resume bem todo o modo que o filme protagonizado por Tony Chiu-Wai Leung e Andy Lau conta sua historia seriada, mostrando todo um mundo conflituoso, que varia entre os luxos proveniente do dinheiro sujo e o receio de ser pego, seja pelos crimes, ou por conta das pessoas serem infiltrados, tudo isso com uma universalidade ímpar, que torna a sua historia fácil de encaixar em basicamente qualquer cidade grande do mundo.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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