Crítica | Conspiração

Lançado para a televisão, dirigido por Frank Pierson, Conspiração foi um filme lançado em 2001, que começa com a arrumação de uma casa em Hansee, no subúrbio de Berlim, onde ocorre a preparação para a chegada de alguém importante. Serviçais e empregadas abrem lençóis, servem mesas, varrem o assoalho e preparam comida suficiente para um banquete. Quem está organizando esse evento, é Adolf Eichmann, personagem de Stanley Tucci que aliás, está muito bem fazendo um anfitrião que aparenta calma e apatia mas que esconde uma enorme tensão e expectativa pelo encontro que ocorrerá. Eles esperam a chegada de Reinhard Heydrich (Kenneth Branagh) um general da SS que liderará uma reunião sobre o futuro da guerra, ao menos no que tange o Reich.

O filme é muito baseado em seus atores. Tucci está muito a vontade, mostrando que sua ansiedade não é só com o rumo de sua vida futura, mas obviamente também dos rumos da guerra, que  serão de certa forma decididos naquela refeição/reunião. Se nota o senso de urgência no semblante do ator ítalo-americano, assim como se percebe uma altivez na versão que Branagh entrega do chefe do exercito alemão.

Há uma certa  demora na chegada dos integrantes da reunia, e uma enorme liturgia na recepção dos mesmos. O modo como cada um deles é apresentado mostra não só a importância do ajuntamento, mas também que segredos muito grandes estão para ser discutidos. Outro aspecto que deixa isso muito claro é a câmera, que fica bem próxima dos convidados, e vez por outra varia rapidamente entre os ombros de uma pessoa para logo depois passear pelo rosto e corpo da pessoa que está no hemisfério oposto.

Um dos personagens que logo de cara parece importante, é o Dr. Wilhelm Stuckart (Colin Firth), mas só se nota realmente qual é sua importância quando as conversas começam a ficar mais séria. Conspiração é claramente um filme de diálogo, com  boa parte dele se passando em conversas durante o jantar e pelas estratégias, mas se seu título fosse Consenso, não seria estranho, uma vez que a maioria dos assuntos “debatidos”, são simplesmente impostos se não houvesse vozes dissonantes ali, embora haja um ou outro incômodo por parte dos mais escrupulosos.

O começo das conversações é sobre coisas e eventos triviais, não há nada muito fora do ordinário. Tendo ciência dos rumos da guerra, da humilhação imposta aos judeus, as mortes que foram causadas. Ver discussões sobre gastos, sobre organização ou sobre o que será ou não consumidos nos territórios e nas estalagens militares é bizarro, especialmente por que os personagens, com a pompa de serem homens importantes falando como se fosse normal o fuzilamento de judeus ou de meio-judeus é no mínimo estarrecedor. Tentar amenizar isso beira o irreal, no entanto é fato que aconteceu e é fato que a historia se repete nesse sentido, de se normalizar certos tipos de comportamentos extremos, como se não houvesse qualquer incomodo ou erro nesse tipo de comportamento quando a segregação deveria só ser combatida por qualquer tipo de liderança de esquerda ou progressista, ou conservadora e direita como é com os alemães.

Se demora mais de um terço do filme para haver a primeira discussão mais incisiva, quando um dos generais diz que não vê necessidade em exterminar os judeus nos campos ou cidades, quando “só” expulsá-los seria o suficiente. Também se tenta passar como lei a regra de esterilização dos judeus, como método para controlar o estado de saúde na Polônia e outras nações  que  fazem parte do território sob as ordens de Hitler.

Mesmo com toada a frieza nas discussões e na leitura dos relatórios de quantos morreram nas câmaras de gás, há de se lembrar que se tratam de homens, de pessoas de carne e osso, que tem alma, que fazem suas necessidades como quaisquer outras e que não tem (em sua maioria pelo menos), qualquer receio de parecer ou não monstruosos. Conspiração termina sem muitas viradas narrativas, é um filme de diálogo e que precisa muito do desempenho de seu elenco, que aliás, está afiadíssimo. Antes dos créditos finais, é dito o destino de cada um dos que lá estavam, e se nota impressionantemente o quão pequenas foram as penas de todos, e talvez essa historia jamais tivesse chegado ao conhecimento geral caso houvesse esforço de procura de registros e investigação para muito além do Tribunal de Nuremberg.

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