[Crítica] Coração Satânico

coração satanico

A música de Trevor Jones, aliada ao clima esfumaçado, dá à cidade um tom gótico não condizente com a sua temporalidade, mas muito ligado à trama espiritual narrada na Nova York de 1955. A neblina causada pelo cigarro de Harry Angel, um detetive interpretado pelo ainda jovem Mickey Rourke, combinada à lembrança do brutal assassinato que ocorre no início da trama, faz da história uma reimaginação dos conceitos vistos em filmes noir, com hediondos homicídios, personagens decadentes no papel de avatares da justiça e claro, com alcunhas repletas de trocadilhos.

A escolha de filmar a obra em cores é justificada pelo desejo de destacar o sangue, condição que atravessa o gênero, fazendo ligação com a temática sobrenatural abordada pelo filme. A dualidade de Louis Cyphre (Robert De Niro) começa pela escolha da alocação: seu quartel general é acima de igreja protestante frequentada por negros, e é lá que ele recebe o investigador, que deveria ir atrás de um sujeito, Johny Favorite. A inserção do ator no papel do cliente misterioso é curiosa, pois em sua volta há uma aura diferente, como se ele vivesse acima das preocupações comuns aos homens daquele tempo, embora ainda mantivesse um pé neste mundo.

É curioso que, nesse quesito, ele se assemelha ao personagem de Al Pacino em O Advogado do Diabo, John Milton, que viria à tela do cinema uma década depois. No entanto, Louis é mais discreto em sua relação com o anti-herói da vez, não se envolvendo com ele de maneira estreita, somente por meio de pistas pouco evidentes, que exigem um bocado de atenção e perícia.

A rotina de Angel varia entre seus cigarros Camel e a apuração das pistas. Por onde ele passa há um rastro de sangue, na verdade, dois, um por vias de morte, e outro, mais estranho, passando por lugares sagrados, como parte de um sacrifício ainda pagão, mas dentro da realidade católica. Esse detalhe se torna algo muito curioso, uma vez que nas religiões de matrizes cristãs não se executa mais animais em seus ritos. Quanto mais mergulha dentro da trama, o detetive encontra mais e mais elementos de ocultismo que remetem visualmente às tribos caribenhas, que aos olhos dos colonizadores, tinham contato direto com Satã.

A volúpia, o crime, a morte e a religião convivem dentro da rotina do detetive, mas sem uma divisão clara ou interseção entre um assunto e outro. Todos os pares convivem harmoniosamente naquele micro-universo, e se tornam ainda mais homogêneos quando o desespero leva Harry até as paragens de Louisiana. O horizonte lodorento e pantanoso é o cenário perfeito para toda a sorte de indiscrições morais de seus personagens, assim como os pecados de morte que ele averigua.

Como um jornalista gonzo, Harry se infiltra em meio à rotina daquela cidade, e passa a agir, falar e se vestir como um local, até para ajudar em seu raciocínio dedutivo. Em meio a tais emoções e sensações, ele ouve um comentário sobre Favorite, mas que se encaixa no modo de agir da maioria dos personagens da trama: “A crueldade é algo bem simples para algumas pessoas”. Angel só se mostra legitimamente assustado ao ver uma roda sacrificial, onde negros fazem o seu culto, liderados por Epiphany Proudfoot, uma moça negra, de boa aparência, que já exercia a função de sacerdotisa desde os 13 anos. A personagem de Lisa Bonet vive nas fantasias de Harry e permeia até os seus sonhos de conteúdo violento e excessivamente sangrento ao estilo gore.

A decadência humana é vista até nos elementos fora do escopo assassino. A arquitetura interna dos prédios, com suas paredes descascando, o ranger das escadas antigas, tudo remete ao fim e à morte que ocorre entre todos os envolvidos no estratagema da investigação. As sutilezas do roteiro são ainda mais flagrantes que os óbvios elementos de terror, como as mortes e órgãos dilacerados habitando os cenários e os ventiladores que rilham em um som incômodo demais e não produzem quase vento nenhum. Não há qualquer possibilidade de alívio na existência típica daquele lugar, nem espaço para redenção ou epifania.

Em uma conversa entre o detetive e seu contratante, Angel assume que detesta o ambiente das igrejas porque o ar gótico do local o deixa apreensivo e ansioso. Sempre que é tomado por qualquer questão religiosa, o personagem reafirma sua origem do Brooklyn, uma zona urbana demasiado castigada e mazelada. Segundo ele, o ambiente onde cresceu não o permitiria vislumbrar o mundo por um viés tão otimista quanto o pensamento religioso normativo exige e, por isso, sua incredulidade estaria justificada, ainda que, em sua intimidade, sejam observados inúmeros símbolos iconoclasticamente canônicos, como a vontade de fazer justiça e a moralidade disfarçada de cinismo, mais uma vez copiada das películas quarentistas em preto e branco. O modo como Alan Parker conduz sua fita é excelente, pois toma emprestado a experiência que teve em drama, notável em Asas de Liberdade e a viagem ácida de The Wall para montar os elementos de thriller psicológico vistos em Angel Heart.

As relações carnais do detetive têm ligação direta com o mar de sangue em que a história estaciona. Na primeira cena em que o sexo é finalmente consumado, e não mais sugerido, há uma viagem recordatória que mostra os pecados de luxúria lado a lado com o montante de óbitos que ocorreram frente à câmera. A magia negra parece ser algo flagrantemente de péssima influência para todos os personagens entrevistados, menos para aquele a quem o drama de Favorite interessa.

Os momentos finais são cortados por um som semelhante a um grito de desespero, que imediatamente entrega ao expectador a peça que faltava naquele estranho ardil. O mistério pelo qual Angel foi contratado para investigar nunca esteve longe de ser resolvido, na verdade só fora negligenciado o tempo inteiro. Mesmo ante a verdade sobre seu passado e sobre seus pecados, Johnny/Harold nega o óbvio e recusa a percepção de que fora instrumento daquilo que sempre declarou não crer, o que piora com as lembranças de quando cometia os seus delitos e com seu consequente salário, a danação eterna.

O estado físico em que Angel se apresenta no final demonstra cansaço, estafa por ter de lutar contra a sua própria natureza, contra a condição que fez dele um sujeito ainda vivo, porém triste, consequência de toda a sua jornada de sexo, morte, misantropia e egoísmo. A cena em que, simbolicamente, ele desce em um elevador antigo, representa o final do personagem e onde ele passaria o pós-vida, um lugar que ele sempre evitou, rejeitou e que, por breves instantes, até evitou ir, mas que, inexoravelmente, deveria ser sua última paragem, seu destino final.