Crítica | Coringa

Nos últimos quinze/vinte anos, o cinema blockbuster se rendeu ao sub-gênero dos filmes de super heróis, e isso causou todo tipo de exploração temática. Coube a Todd Phillips apresentar um filme da Warner que buscaria um objetivo bem diferente tanto dos filmes super divertidos e coloridos do MCU – embora esse tenha muitas cores, em uma abordagem completamente avessa a essa – quanto da temática obscura pseudo-adulta das  versões de Zack Snyder. Coringa  é muito baseado em seu interprete, Joaquin Phoenix, que faz o aspirante a comediante Arthur Fleck, um homem de muitos problemas.

O cenário escolhido é uma Gotham City com greve dos lixeiros, tornando o simples hábito de transitar pela cidade um esforço hercúleo. Nesse  ínterim, Arthur se maquia, forçando um sorriso com suas mãos, enquanto claramente seu semblante é triste. Ao fundo, se ouve o rádio, da onde saem as poucas vozes com quem ele interage, pois até seus companheiros de trabalho o segregam. Do lado de fora, se assiste uma cidade de arquitetura clássica e  colonial, mas ainda largada, desleixada por anos de abandono dos governos municipais.

O espírito e caráter de Arthur é melancólica e depressiva enormemente, ele é incompreendido, mas não por qualquer frescura de relação que algumas plateias associaram – há inclusive poucos elementos do comportamento Incel, por exemplo, ao ponto de a maioria das associações desse comportamento ao que Fleck faz soarem reducionistas – ele lida com delinquência juvenil, humilhação contínua por desconhecidos e conhecidos, além de sofrer Bullying mesmo com idade  avançada. Seu visual é estranho, assim como a risada forçada que ele dá, fruto de um dos seus problemas neurais. É curioso como o roteiro de Phillips e Scott Silver usa o movimento do riso como catalisador da tristeza e do nervoso.

É bem complicado de analisar o filme sem revelar partes fundamentais de sua trama, portanto se o leitor se incomoda com spoiler recomenda-se ler o que será falado abaixo após ver o filme.

As relações íntimas do protagonista são tão conturbadas que fazem até a condição de protagonista ser discutida. A historia é sobre o personagem de Phoenix, mas há tanto espaço para todos os outros personagens que o destaque é bem compartilhado, e sua condição de herói não é aproximada do Anti-Herói, e sim de Herói Falido, como foi Michael Corleone em O Poderoso Chefão. O papel que Frances Conroy faz como uma mãe presente, carinhosa mas extremamente carente explica boa parte da personalidade estranha de Arthur. Os colegas de trabalho também tem bons momentos, embora sejam curtos, mas o desempenho mais impressionante fora do ator principal são de Robert DeNiro, que faz uma espécie de anti Ruper Pupkin de O Rei da Comédia, e Zazie Beetz, que faz uma vizinha de porta do personagem-título, que vive no limbo ambíguo da frágil psique de Fleck. Essas personagens, por menos que sejam ajudam a abrilhantar o que Phoenix constrói durante as pouco mais de duas horas de duração.

É curioso como as gargalhadas involuntárias de Arthur pontuam não só a sua condição de não caber dentro da sociedade comum, como o estado catastrófico que Gotham e a maioria das cidades grandes tem. O riso incomodo representa bem como é a sensação geral do trabalhador precário em meio as cidades grandes e sujas. O trabalhador é massacrado, a política o reprime e o reduz a apenas um número e ter esse estado normalizado ajuda a causar doenças de alma e mente, ou ao menos serve como gatilho para isso. O corpo magro, machucado e lesionado ajuda claro a demarcar visualmente que ele tem problemas de comportamento e cognição, mas também representam como o homem comum sofre, portanto quando ele finalmente revida a segregação dos playboys inconsequentes, rapidamente o povo o abraça, levando sua causa até as última conseqüências, embora até isso seja discutível quanto a realidade ou não, pois quase todos os momentos do filme primam pelo fantasioso e onírico, e essa ambiguidade faz o filme soar mágico.

O filme passa pela rotina triste de Arthur, é visceral e repleto de gore, quase como um manual de psicopatia. É curioso como ao mesmo tempo que ele tem dificuldade em fazer rir o público que tem, seus atos violentos tem um humor implícito bem grave, causando vontade de rir de nervoso, tornando o espectador um pouco em seu personagem. A evolução do homem que sente não se encaixar em nada evolui quase naturalmente para o desejo de justiçamento, e é nesse ponto que faz aproximar o Coringa e Batman. Por mais que haja um cunho de Batman: A Piada Mortal no cerne do filme, há também semelhanças com Asilo Arkham de Grant Morrison, embora seja muito menos explicito, e more só nas semelhanças citadas.

O fato de não ter compromisso com o contrato social torna Arthur perigoso, pois as travas para alguém normal não funcionam consigo. O ritmo do filme beira a perfeição, tanto a construção do personagem quanto quando começa a ação mais gore soam absolutamente fluídas, e é nesse ponto que a aproximação deste Coringa com as fitas antigas de Martin Scorsese tem sentido, pois Bons Companheiros, Cassino e Taxi Driver tem muito desse aspecto, não só temático mas também na forma de abordar. Há também claras referencias ao cinema de Francis Ford Coppolla, especialmente pela romantização do excluído e marginal, mostrando que uma pessoa que “pratica o mal” não necessariamente a faz  por razões maniqueístas, mas sim por desprezo dos que deveriam ser os seus, agravado pelo fato de Arthur, ao contrário dos Corleones os dos soldados de Apocalipse Now morar em questões precárias e nada abastada.

É incrível como, após Fleck deixar as pílulas de lado, o mundo que antes estava ruindo começa a mudar seu caráter e zonas de conforto, com ele, que sempre viveu no caos, ascendendo aos céus e ribalta que ele sempre busco para si. Neste ponto, temáticas psicanalíticas como Complexo de Édipo são agravados, além da condição de stalker e claro, rejeição paterna e paranoia também são aludidas, e obviamente se mostra uma realidade que pode jamais ter ocorrido. A humanização do “herói” combina com o clima de terror, e até com a anestesia ideológica dele, que assume que não tem crenças, que nada o faz ter fé ou  escolha de pensamento.

Há dois números  visualmente maravilhosos, próximos do final, onde a sanha psicopata do sujeito rejeitado é finalmente alimentada, e há muita poesia neste ponto, mas nada irresponsável, ou que glorifique comportamento extremo. O tempo inteiro a câmera é solidária a Arthur, mas não iguala esses atos a qualquer moralidade correta, ao contrario. Vitória do Caos ou mais um devaneio.

O apocalipse de uma cidade suja e corrupta como Gotham é a Gênese, o nascimento do que seria o vigilante Cruzado Encapuzado e a forma como essa cena é conduzida (apesar de muitas vezes repetidas em película, TV e quadrinhos) e torna ainda mais problemática a questão de Batman ser um homem que bate em bandidos geralmente pobres (Os capangas principalmente), uma vez que o movimento popular evocado em Coringa faz pensar como o povo poderia  tomar para si as rédeas de seu destino, com instauração do caos em um paralelo com a Revolução Francesa obviamente com uma motivação não presas a teorias, mas ainda assim consciente politicamente, independente do catalisador dela ter sido um sujeito sem posicionamento político definido. O céu é uma percepção bem particular segundo a ideia do filme, assim como a percepção do inferno, e Gotham reúne os dois arquétipos num espaço bem pequeno de espaço, em uma abordagem em áudio visual praticamente inédita, muito rica, violenta, condizente com as origens de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson mas também carregando uma carga dramática que se assemelha demais ao cinema europeu disruptivo dos movimentos da Novelle Vague e  Surrealismo Alemão e Italiano.

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