Crítica | Corpo Fechado

O primeiro filme de M. Night Shyamalan após Sexto Sentido começa aludindo aos aficionados por quadrinhos, julgando os males e o bem provindos do colecionismo desenfreado para logo depois saudá-lo através da história de David Dunn, personagem de Bruce Willis, sujeito esse que faz lembrar momentos clássicos dos roteiros de Stan Lee, Jerry Siegel e Jack Kirby. Antes de apresentar o seu protagonista, o roteiro mostra uma mulher negra dando a luz a uma criança tão fragil que tem as pernas quebradas.

A desconstrução dos mitos dos quadrinhos começa ao mostrar que David não é perfeito. A câmera que se esconde entre os bancos do trem o espiã flertando com Kelly, e também flagra ele escondendo sua aliança de casamento. Dunn fracassa duplamente, primeiro em seu quase flerte, interrompido pela própria moça , e erra também para e não conseguir ter um fim no sofrimento emocional que tem sido sua vida, pois quando descarrila o trem em que está, ele é o único sobrevivente, sem nenhum osso quebrado.

O milagre que ocorreu não foi celebrado. Sua relação com a esposa já está falida e ele mal fala com seu filho, a escolha de Shyamalan foi de focar a clássica jornada do herói de Joe Campbell em uma figura nada invejável, comum, que tem um trabalho chato e uma intimidade estranha. A Touchstone era um estúdio menor que a Disney utilizava para fazer filmes independentes ou que não se encaixavam muito no estilo super fantástico e feliz que normalmente abarcava seus filmes animados e em live action.

A cadência da história lembra demais as histórias de origem nos quadrinhos. Peter Parker vai descobrindo aos poucos seus poderes após sofrer um acidente radioativo, mesmo os X-Men descobrem lentamente, quando chegam a puberdade. Para Dunn o paradigma é diferente, ele só percebe sua estranha condição na meia idade, e ele não consegue lidar bem com isso, precisando de consultoria.

O jovem Elijah Price, interpretado por Johnny Hiram Jamison quando novo recebe um presente de sua mãe, um número de Active Comics, uma revista que faz óbvia referência a Action Comics onde apareceu o Super Homem , e o garoto abre um embrulho, dado pela sua mãe como prêmio por ter saído. Já aqui há mostrar do que Price se tornaria, pois mesmo quando ele vira o gibi para o lado correto, a câmera acompanha o movimento de rotação, mantendo o conto de fadas moderno de luta do bem contra o mal sempre com um ângulo invertido, embaralhando na cabeça do rapaz as noções de moralidade. Adulto, ele é executado por Samuel L. Jackson, um colecionador de histórias em quadrinhos que acredita que a nona arte é um modo de contar a história da humanidade, como quando os egípcios faziam hieróglifos. Ele chama Dunn, e explica toda sorte de loucura crédula de que David é poderoso e aquilo o deixa com um misto de apreensão e susto.

Os aspectos técnicos fazem todo o roteiro e M. Night funcionar a perfeição, como a fotografia Eduardo Serra, que ajuda a tornar todo o escopo ainda mais grandioso, e a música de James Newton Howard, que reúnem elementos mais modernos, além de referências claras ao trabalho de John Williams e Superman e Danny Elfman em Batman.

A revisão do filme permite chegar a algumas conclusões que talvez não fossem alcançadas vendo somente uma vez, não só em pistas mas também em semelhanças de trajetórias. Elijah e David parecem ter uma ligação espiritual, pois ambos tem uma fase depressiva que ocorre quase simultaneamente, entre os dois. A união e rivalidade entre eles parece mesmo fadada a a acontecer de qualquer forma, muito semelhante ao que ocorreu com Lex Luthor e Clark Kent, e que é selada quando finalmente eles tocam as próprias mãos, com o herói percebendo enfim o óbvio.

A epifania que Dunn tem pode ser explicada como ele chegando a obvia conclusão provinda das pistas reunidas, por raciocínio lógico romantizado ali, mas a possibilidade daquilo ser uma fantasia causada pelo toque de mãos, separada apenas pela luva de Elijah, explicando que foi a união dos opostos que o fez ter a tal visão é algo muito mais poderoso, escapista e condizente com a história que Shyamalan propaga. Este final foi erroneamente criticado por não possuir um plot twist tão forte quanto o de O Sexto Sentido, mas aqui cabe demais e faz dele um filme inteligente e condizente com a cena de adaptações de quadrinhos da época, como muito mais coragem para abraçar a fantasia do que boa parte até da cena de heróis recente.

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