[Crítica] Corra!

Jordan Peele tem uma carreira bastante curiosa. Seu background como ator inclui uma porção de programas televisivos e filmes de comédia, indo das dublagens de Bobs Burguer, Frango Robô e American Dad, até os live action Key and Peele e MadTv. Após contribuir em alguns roteiros, Peele decide realizar seu primeiro filme como diretor, que seria Corra (Get Out no original)um filme de terror que utiliza elementos de discussão a respeito do racismo vigente na parcela conservadora dos Estados Unidos.

Apesar de ter um caráter único, vê-se muitas semelhanças deste filme com Corrente do Mal, em especial pela condução de discursos contra questões progressistas atualmente em voga. O filme de David Robert Mitchell discorre sobre a sexualidade feminina e sobre os abusos que ocorrem tradicionalmente com mulheres, enquanto a vivência de Chris Washington (Daniel Kaluuya), um jovem negro que vai visitar a família de Rose Armitage (Allison Williams), uma moça branca que aparenta ter uma mentalidade em nada conservadora. Ao chegar no lugar, ele se depara com Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener), os pais da moça, que agem de maneira suspeita, cada uma a seu modo, causando estranhamento no rapaz.

Ocorre então alguns eventos estranhos com o rapaz, que durante uma festa, é indagado pela maioria das pessoas sobre seus dotes físicos, sobre seus talentos com a câmera – uma vez que é fotografo – e sobre os hábitos de sua raça. Tudo ali causa estranhamento no sujeito e as atitudes dos visitantes são ditas como alvos de curiosidades, sendo na verdade atos puramente passivo agressivos, e causando no espectador uma reflexão importante, ainda mais se o público estiver disposto a repensar suas atitudes, de que todo o circo nonsense praticado por essas pessoas é também comum no cotidiano do homem moderno.

A construção do suspense torna-se quase perfeita ao misturar os elementos que já foram estabelecidos nos trailers e demais materiais de divulgação. O uso de estereótipos raciais tem uma inversão de intento muito bem urdida, seja nos serviçais da casa dos Armitage, ou no amigo de Chris e alívio cômico visto em Rod (LilRel Howery). Peele toma cuidado para dar razões profundas para utilizar os arquétipos do negro servil e do negro engraçado, engrossando inclusive a questão central de ilusão hipnótica contra o pensamento de teoria da conspiração.

Se apenas seguisse a premissa que aparentava até então, Corra já seria um filme muito rico em temática, pela quantidade de discussões que suscita, mas ele não se limita a ser um produto que levanta questões pontuais, mesmo que tenha um plot twist , que por sua vez, também  não soa desonesto e que causa espécie em quem o assiste. Mais do que isso, a direção de Peele é arrojada e suas cenas causam tanta tensão quanto a espera que seu roteiro sustenta ao desenvolver a descoberta da verdade, assim como não fica refém de suas viradas dramáticas e se valendo bem inclusive das partes humorísticas, além é claro de desconstruir qualquer possibilidade por parte de detratores mais retrógrados, que gostam de afirmar de associar o discurso de defesa contra preconceitos raciais como vitimistas ou paranoicos, uma vez que toda perseguição dita no script acontece todos os dias com a população negra.

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