Crítica | Covil de Ladrões

Em 1995, estreou nos cinemas Fogo Contra Fogo, um dos melhores trabalhos do diretor Michael Mann. Na trama, um policial brilhante e obstinado, interpretado por Al Pacino, caçava um também brilhante e obstinado ladrão de bancos, interpretado por Robert De Niro. Mais do que um filme policial, o longa tratava de homens embrutecidos e praticamente amaldiçoados por suas escolhas na vida, um enfoque bastante interessante na dinâmica familiar dos personagens, além da relação de dependência quase simbiótica que os protagonistas De Niro e Pacino desenvolvem ao longo do filme. Em suma, um grande filme. Sendo assim, o maior erro de Covil de Ladrões é se banhar excessivamente na fonte original, sendo extremamente reverente em alguns momentos e não assumindo uma personalidade própria. O que se assume, é que o filme é uma grande homenagem ao já clássico longa metragem de Mann, porém, pálida, ainda que sincera.

Na trama escrita por Christian Gudegast (também diretor) e Paul Scheuring (criador do seriado Prison Break), um time de ladrões altamente treinados empreende um assalto que acaba com vítimas fatais, o que o coloca em rota de colisão com a unidade de elite do departamento da polícia de Los Angeles liderada pelo tresloucado policial Nick O’Brien. Ao mesmo tempo, os assaltantes planejam um espetacular roubo à unidade local do Banco Central do EUA.

Covil de Ladrões tem boas idéias, mas que restam prejudicadas ao longo do desenvolvimento da trama. Há um rápido enfoque na vida pessoal de alguns personagens, no caso, o protagonista Gerard Butler (que vive o líder da unidade policial) e do assaltante vivido por 50 Cent. Porém, o desenrolar dessas subtramas é terrível. No caso do personagem de 50 Cent, que de certa maneira emula o personagem de Val Kilmer em Fogo Contra Fogo, o tempo de tela é pouco, o que impossibilita que o espectador estabeleça uma relação de empatia com ele. Já no caso do protagonista, o que ocorre é um erro de concepção grave. Ao invés de obstinado policial, o personagem é composto como um babaca chauvinista que trai a mulher, chegando ao cúmulo de culpar a esposa pela traição. Daí, mais adiante na trama, muda-se o tom para que ele seja visto como uma espécie de incompreendido, o que acaba por acentuar a antipatia despertada por ele.

A ideia de mostrar a unidade de policiais como quase marginal soa interessante, não fosse os personagens extremamente genéricos (e alguns estereotipados) que só estão ali pra fazer número. Caso esse aspecto da trama fosse melhor desenvolvido, o filme ganharia em profundidade, uma vez que a pertinente questão “os fins justificam os meios?” seria trazida à tona. No caso, ela é só pincelada no início do filme para depois ser abortada. No que tange ao jogo de gato e rato que se inicia entre o protagonista e o antagonista, não há vestígio de engenhosidade. Há um amontoado de obviedades novamente prejudicada pela concepção dos personagens, com o policial interpretado por Butler parecendo mais um adolescente implicante e o líder da gangue vivido por Pablo Schreiber incapaz de justificar a pecha de ladrão espetacular que lhe é atribuída.

Entretanto, o filme tem lá os seus acertos. As cenas de ação orquestradas por Gudegast são extremamente eficientes e com uma estética crua que chega a encher os olhos. O terço final, que mostra o roubo do banco e as suas consequências, é muito bem construído e o fato de não se utilizar de malabarismos, como em Onze Homens e Um Segredo o torna muito eficiente, com as doses corretas de suspense e ação. As reviravoltas também são interessantes, além de deixar o gancho pra uma continuação (já anunciada pelo estúdio), faz com que a simpatia pelo personagem de O’Shea Jackson Jr. (filho do rapper/ator Ice Cube que é incrivelmente parecido com o pai) cresça, deixando o desejo de que a continuação conserte os erros deste Covil de Ladrões, cometa os seus acertos próprios e redima essa película que embora dotada de boas intenções, acabou não sendo boa quanto poderia ser.

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