Crítica | Crossover

O basquete de rua é uma modalidade de um esporte popular que tem tantos adeptos que rivaliza facilmente com as modalidades profissionais, claro, sem boa parte do glamour. Crossover trata disso, mas também mergulha em uma realidade diferente, mostrando personagens humanizados e idealizados, em um contexto diferente, primeiro jogando Streetball, que é uma forma mais organizado do tradicional basquete de rua, e outro na realidade de Tech (Anthony Mackie) e Noah Cruise (Wesley Jonathan), dois caras habilidosos de Michigan/Detroit, que trabalham na mesma loja de eletrônicos, com ambições bem diferentes e que jogam no mesmo time combinado, o Enemy of the State.

Tech é um sujeito mais pés no chão, trabalha como atendente, é viajandão e impulsivo, seu amigo por outro lado tem um talento maior, e seus planos passam por se profissionalizar. O que eles tem a mão são os campeonatos amadores, e essa construção de atmosfera e cenário. Infelizmente há poucas cenas dos jogos em si, o que se desenvolve é a rivalidade entre Tech e Vaughn (Wayne Brady), um adversário de quadra, e eventualmente os convites de Vaughn (Wayne Brady) a Noah, para tentar a vida como esportista ao invés de investir nos estudos que faz na faculdade de medicina.

Há uma clara referência visual, seja em tom de reverência ou mero compartilhamento de inspirações com os filmes de John Singleton. Há tomadas que lembram demais +Velozes +Furiosos, Os Donos da Rua e Baby Boy. Além disso, nos pequenos golpes de Tech, nota-se uma reverência enorme a Roy Preston e seu Homens Brancos Não Sabem Enterrar, embora a realidade aqui seja muito mais suburbana, e seus cenários

O filme foi rodado basicamente em dois lugares, basicamente, Detroit e Los Angeles, mas quase não se nota a diferença local nas tomadas escolhidas pelo diretor Preston A. Whitmore II. A diferença local mesmo é vista na mentalidade dos dois personagens. Tech cresceu e vive no mesmo bairro perigoso de sua infância, e essa vivência influi até em seu ego, que não aceita bem a participação que faz em um comercial quando um ator famoso substitui seu rosto nessa que é uma propaganda de circulação nacional, enquanto Cruise, por ter se mudado para um bairro de poder aquisitivo maior, depois que sua mãe morre e vai para casa de sua avó, que o ajuda a ter mais oportunidades, por ter mais dinheiro.

O argumento de que o dinheiro liberta a mente é um bocado complicado, a impressão que o roteiro dá em muitos pontos é que a indolência de Tech é dada pelo ambiente em que vive, mas a realidade é que o lugar de origem dos dois formou caráter, e é evidente que pessoas com poucas oportunidades tendem a ser mais amargurados e magoados. Aos poucos o filme se torna mais explícito na exploração das oportunidades, e mostra que por mais que o destino dos amigos tenha mudado e por mais que seus anseios sejam diferentes, ainda há uma ligação de alma ali, e o ambiente social não os enfraquece, e sim os fortalece, os torna mais duros na queda e mais resistentes as humilhações que a vida os impõe, por serem negros, por terem origem humilde e por se atreverem a não mais uma na multidão que se enxerga como coitado.

O script tem fragilidades, e apela algumas vezes para o emocional, e os momentos finais são carregados disso, de  um melodrama que acerta quando é sucinto e erra demais ao ser demasiado emocional. Mas as cenas de jogo superam isso, e a atuação de Mackie como o vingativo e justiceiro amigo dos seus amigos faz todo o restante valer a pena. Crossover tem muita alma, em alguns pontos, exagera na questão emotiva, mas não é um objeto genérico, é carregado de espírito e caráter.

Facebook – Página e Grupo | Twitter Instagram | Spotify.