Crítica | De Olhos Bem Fechados

Como se filma um pesadelo? Pergunte isso a David Lynch, e a resposta será um quarto mal iluminado com um homem vestido de coelho comendo biscoitos, sentado numa cadeira olhando para a parede e quase sem se mexer. Para Steven Spielberg, esse estado de devaneio sombrio que tanto nos perturba (e nos atrai) mora é na realidade das coisas, nos absurdos da vida real. Talvez De Olhos Bem Fechados, o mais belo dos suspenses dos anos 90, habite exatamente a zona cinzenta entre essas duas representações, e vai além, uma vez que explorar uma realidade inexplicável já faz parte dos deveres da sétima-arte. Quantos já não fizeram isso, seja numa verve mais comercial, ou numa inspiração mais cult, como sempre foi com Stanley Kubrick – e aqui não é diferente. Muito já se falou sobre seu último filme, o clássico que ele não chegou a ver a recepção na sua aguardada estreia. E no Oscar 2000, devido as polêmicas dos temas da obra, e a nudez masculina e feminina em várias cenas bastante eróticas, a Academia foi novamente puritana e não indicou em nenhuma categoria a última cria do mestre. Espanto? Mas é claro que não. Dane-se o Oscar, e vamos ao que interessa.

O sarcasmo aqui com as relações é evidente, e se um dia Kubrick ouviu seus acusadores dizendo que ele era incapaz de ser sentimentalista em seus filmes, ele certamente pegou esse sentimentalismo e nos mostrou seu lado mais cruel, sombrio e interessante, possível, no mais mórbido e luxurioso dos pesadelos. Seguindo os passos do casal Bill e Alice Harford, tem-se aqui um conflito a respeito da fidelidade entre homem e mulher que, aos poucos, consome a paz e a vida social e privada de Bill, cada vez mais perdido a vagar nas ruas coloridas de Nova York até ser engolfado pelas trevas que, se o pouparem, é questão da mais pura sorte – como se o destino avisasse ao gato que sua curiosidade, só desta vez, não será em vão, e muito menos punitiva. A sensação de sermos voyeurs de uma história nunca foi tão aguda assim, ao passo de assistirmos personagens deliciosamente imperfeitos, vilões de si mesmos, numa espécie de purgatório cujas relações são fadadas ao mais completo fracasso. Como reverter esse quadro? Só escapando para, assim, voltar ao mesmo patamar de antes. Um purgatório, propriamente dito, num verdadeiro filme de terror cujo maior susto, e espanto, é conseguirmos nos reconhecer no simbolismo perturbador dessa obra-prima.

Eis um tratado sobre o escondido, sobe o ocultismo e sem parecer ou soar didático a tanto. Se Ingmar Bergman mostrou o casamento como um abismo, seja na mesa, seja na cama, Kubrick viu a instituição matrimonial como algo surreal, repleto de segredos e absurdos metaforizados numa elite secreta cheia de rituais que envolvem suas senhas, seu sexo, e suas máscaras – exatamente como a maioria dos relacionamentos de verdade parecem ser após um tempinho, aos participantes. Tom Cruise e Nicole Kidman, casados na época, se recusavam a dar entrevistas antes da primeira exibição do filme, uma jogada de marketing para alavancar ainda mais a curiosidade de todos. Muito se falava, em especial, acerca de cenas pornográficas e a forte tensão sexual em torno da desconstrução filmada de um casamento, no início acima de qualquer suspeita, mas que gira em torno daquilo que fomenta os laços que podem unir duas pessoas: sexo, poder, e redenção. Kubrick nunca foi tão fundo nas engrenagens de um relacionamento, sendo que para o cineasta todo romance é hipócrita, cínico por natureza, e há sempre algo não dito por trás de olhares e falas bem intencionadas.

É preciso fechar os olhos, e bem fechados, ele diz, para enxergar o óbvio, como um profeta é capaz de fazer. Stanley Kubrick conhecia bem a teoria da psicanálise, e se interessava pelos recônditos obscuros e enigmáticos da alma humana tanto quanto amava jogar xadrez, em seus sets de filmagem. Na Nova York dos anos 90, suas ruas bem iluminadas e suas festas e apartamentos de luxo be iluminados escondem, com o brilho, os mistérios do homem que nele habitam, e ao redor dele se escondem, no espectro (ir)real das coisas. Através de cenários normais, a iluminação teatral se faz necessária para tornar tudo artificial, de propósito, evidenciando assim as ilusões que o mundo urbano e falso-moralista dos homens aloja. Para Kubrick, tudo é uma grande perversão revestida de romance. Tudo é uma grande mentira, uma grande farsa visualmente deslumbrante!, gritam as imagens quentes e frias de De Olhos Bem Fechados, acompanhadas de uma trilha-sonora que, as vezes, dá o tom de um tenso ritual secreto, e noutra vez, poderia ser usada no divertido percurso de um circo dos horrores. De Oscar Wilde nos fica a máxima: “Dê ao homem uma máscara, e ele se tornará quem realmente é.” Kubrick pegou essa frase, e fez dela um dos seus melhores filmes. E isso nunca será pouca coisa.

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