Crítica | Deixando Neverland

O documentário de 4 horas de Dan Reed começa bem pessoal, mostra um dos objetos de estudo do filme em gravações antigas, ainda novo, com Michael Jackson para logo depois mostrar sua fala. O jovem é Wade Robson, um australiano que alega ter sido abusado pelo rei do pop, e ele é um dos maiores depoentes em Deixando Neverland, filme da HBO envolto em polêmicas por reacender a discussão em torno das acusações a Jackson, que foram julgadas a época como inocente de qualquer aliciamento de crianças.

O viés do filme é simples: dar voz a quem na época não tinha traquejo ou vivência o suficiente para se defender sozinho, reabrindo feridas no processo, embora os reclamantes não se sintam justificados de modo algum. O início da historia trata de situar o espectador sobre quem são os acusadores e como eles eram antes do contato com Michael, assim como resgata boa parte da memoria popular relativa ao ícone que era o cantor e performancer.

Jimmy Safechuck, foi um protagonista de uma peça publicitária da Pepsi, em 1986, e ele fala que quando era novo não era tão fã de Michael, era mais de Voltron ou Transformers, mas ao fazer o comercial ficou absolutamente encantado com tudo aquilo, com o glamour, os óculos, as jaquetas brilhantes e com a figura do astro em si, afirmando que isso era sedutor, mas não no sentido sexual, obviamente. É um pouco perturbador que Wade e Jimmy falem dessa época com alguma emoção além do amargor, pois eles eram encantados com a figura do ídolo, que era obviamente muito amado pelas crianças. Todos os entrevistados, vitimas ou não, focam o fato de Jackson ser um homem solitário, sem amigos, inalcançável, então se as pessoas eram chamadas a intimidade dele, elas eram automaticamente privilegiados.

As respostas dos envolvidos as indagações da intimidade de Jackson revelam que ele só andava bem a noite, pois conseguia driblar os fotógrafos e repórteres de revistas de fofoca. Ele chegou a morar com Jimmy, e a mãe do mesmo cuidava dele, lavava suas roupas, lhe dava abrigo e o alimentava. Isso ajuda a formar o quebra cabeça de como parentes deixavam seus herdeiros com o astro. O relato passa ser mais assustado por conta de Jimmy ter sido o líder das crianças que subiam ao palco durante as turnês de Bad, sempre munido de roupas iguais a da estrela, observado por ele como um garoto brilhante e como parte do show, exatamente a parte mais lúdica.

A parte em que começam a falar sobre as relações sexuais tem detalhes muito ricos e igualmente perturbadores por motivos óbvios. Nota-se nos possíveis vitimados um rubor ao falar disso e ao descrever a quantidade exorbitante de vezes em que transavam com Michael, e pela descrição de um deles, isso acontecia muito por conta de ser ali um começo de “namoro” (uso a palavra em atenção ao termo que o próprio usa), e também por que Michael ganharia a confiança deles bem aos poucos, dizendo que o que faziam entre quatro paredes era algo comum e que não deveria gerar vergonha em ninguém, e isso entrava em contradição com a necessidade de fazer segredo até aos pais dessas crianças. Seja nos hotéis, em viagens ou na nova casa (Neverland) as historias de repetem, e o fato de ter mais um episódio sobre essas invasões de intimidade ajudam o documentário a desbaratar a ideia de que era coincidência, ou que era culpa das crianças terem caído nessa rede. De fato parece algo planejado pela estrela da música pop, um sujeito amável a primeira vista mas que não era bem resolvido consigo mesmo sexualmente.

Há todo momento parece que há algo entalado na garganta dos homens que no passado se relacionaram com Michael, não só pelas lembranças do que viveram e de como suas sexualidades foram despertas, mas também porque era algo emocionalmente muito forte, e que era descartável, uma vez que o documentário dedica uma boa parte de seu tempo detalhando o processo de rejeição/ substituição do “melhor amigo” de Michael, inclusive colocando Macaulay Caulkin nesta equação.

Há cenas de Chantal, irmã de Wade, defendendo Michael, basicamente porque ela o amava e não tinja noção de que seu irmão caçula só defendia Jackson para tentar chamar a atenção do homem que um dia ele amou e que o fez sentir amado. Até por ser um filme que não produz muitas conclusões, é difícil chegar a uma conclusão, e é ainda mais difícil não enxergar os entrevistados como vítimas, como pessoas arrependidas de participar de um esquema de defesa para atos que eles mesmo sofreram.

Os detalhes passam também pela relação de inter-dependência das famílias de Jimmy e Wade com Michael, mesmo quando os mesmos se tornaram adolescentes, além é claro da relação publica que tinha com mulheres, e ao menos Wade tentou ter uma relação não amorosa com ele, muito por conta dele ter se tornado um famoso coreografo, mas a quantidade de bizarrices prosseguiu aumentando.

É incrível o processo de recuperação dos dois entrevistados, que só toparam falar sobre e detalhar tudo tanto tempo depois da morte de Michael, que morreu em 2009, 10 anos da primeira exibição do filme, e é perfeitamente compreensível o tempo de digestão que eles tiveram, afinal, até por conta das muitas sequelas. De fato o filme não apresenta nada muito novo, mas é chocante e estarrecedor por conta da marca que Michael deixou nada vida dos dois meninos. É possível forjar qualquer coisa, e claramente a obra não reabrirá casos jurídicos, mas não há como não enxergar a cadeia de fatos apresentados pelos dois como plausível e o quadro piora demais ao expor o que a imprensa da época fez com ambos, quando decidiram falar sobre os abusos. A intenção do filme, mesmo que os defensores do cantor e sua família falem o contrario, é servir de voz a quem não conseguiu falar tudo o que queria, seja pelo sensacionalismo dos programas que os receberam, ou pela perseguição de quem é fanático pela figura e obra do astro. O acerto de Deixando Neverland mora nessa oportunidade de desabafo, e suscita muito mais interrogações que respostas, e faz lembrar o quão urgente se faz discutir de maneira sóbria e não desesperada e afetada sobre pedofilia.

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