[Crítica] Deixe a Luz Acesa

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Logo na abertura, expõe-se de forma criativa a temática que permeará este Deixe a Luz Acesa. Com pinturas e obras de arte retratando homens nus, seminus – ou simplesmente à vontade – em seus quadros. No seu quarto longa-metragem, Ira Sachs aborda o cotidiano de uma relação homo-afetiva, mostra suas agruras e sofrimentos, tanto os comuns a qualquer tipo de casal, quanto os problemas específicos deste nicho.

Erik – Thure Lindhardt – é um cineasta, homossexual assumido, com uma carreira voltada pra documentários que retratam quase sempre a estética e vida gay em geral. O período histórico retratado nos primeiros atos mostra o seu árduo trabalho com uma fita que retrata o histórico da vida gay de Nova York, dos anos 40 aos 90, e em paralelo a isso, Erik é mostrado procurando parceiros sexuais. Nessa “busca” são mostrados alguns estereótipos, até que em um desses encontros a relação fica mais séria.

O roteiro aos poucos desenvolve a relação entre Erik e Paul (Zachary Both), desde o encontro casual, até o ponto em que eles resolvem assumir a relação, mas não há flores ou um mundo cor de rosa, ao contrário, os fantasmas do passado estão presentes.

Paul enfrenta problemas sérios. No começo, tem de lidar com seu namoro (hetero) mal resolvido. Após isso “superado” e já morando com seu novo cônjuge, o personagem passa por um grave problema de abuso dos entorpecentes, fato este que o faz perder até a estreia do documentário de Erik. Paul sofre intervenção, é internado a contragosto e seu companheiro sofre junto com ele, e esse período é retratado de uma forma sensível, e que foge de pieguismos. Nenhum dos personagens é vitimizado, nem pelas circunstâncias e nem pelas pessoas.

É impossível não notar algumas semelhanças entre o personagem principal e o diretor, se não nas situações de conflito, ao menos há um paralelo com o background de ambos. Ira Sachs é judeu, homossexual , e tem propriedade para falar do tema. Seu roteiro – auxiliado por Mauricio Zacharias – aborda temas espinhosos do cotidiano de um homem gay sexualmente ativo, e passa pelas situações comumente constrangedoras deste nicho.

Destaque para a cena em que o protagonista descobre se é ou não soropositivo, um momento de dramaticidade comovente por parte de Thure Lindhardt. As atuações de um modo geral emprestam muita credibilidade ao filme, pois são próximas demais do cotidiano contemporâneo.

Aos poucos, a relação entre Erik e Paul torna-se algo degradante e obsessivo, e próximo ao último ato, é mostrado como ela chega ao fim, e o destino que cada uma das partes toma. O maior esmero em Keep the Lights On é em retratar um relacionamento de forma verossímil, real e autêntica, longe dos romances idealizados e fantasiados presentes em filme de romance água com açúcar. O universo gay de Ira Sachs não é cor de rosa, é composto de carne, alma, sentimentos e verdade.