Crítica | Desagradável

Desagradável, documentário de Fernando Rick sobre a cena de rock underground carioca, focado na trajetória do Gangrena Gasosa, uma banda de metal que se pautava em piadas relativas a religiões de matriz africana. Para entender a construção da banda que se autodeclara como fundadora do Saravá Metal, se explica todo o contexto da cena que ocorria no Garage, uma casa de show fuleira localizada na Praça da Bandeira, bem próxima do famoso prostíbulo carioca Vila Mimosa. Aquele ambiente salutar ajudou a propagar o nome da banda e as maldições que ocorriam com seus integrantes.

Após depoimentos de famosos, como o crítico Tom Leão e músicos como Marcelo D2, BNegão, entre outros. A formação do grupo variou muito, e ex-integrantes e atuais dedicam suas falas a construção dessa história perdida, onde se fala sobre as inspirações da música, levando-se em conta até mesmo o livro Orixás Caboclos e Guias, Deuses ou Demônios de Edir Macedo, uma “literatura” bastante preconceituosa, fato que por si só demonstra que a maioria da banda não tinha muita noção no que estavam fazendo, utilizando aquele arquétipo visual unicamente por ser estiloso.

O Gangrena roubava itens de despacho das esquinas suburbanas, e tinham integrantes que também eram adeptos do espiritismo, com um contexto de absoluta loucura, com alguns temendo bastante a temática de macumba, enquanto outros estavam lá apenas para fazer troça. A fonte da maioria do figurino era o Mercadão de Madureira, que tem muitas lojas especializadas em artigos religiosos de  Umbanda e Candomblé. Para alguns, como o cantor Angelo Arede, essa era a versão do black metal com identidade nacional, e a maioria dos que fazem parte do show procuram fugir de ter qualquer  fé nas entidades homenageadas, uma vez que tais brincadeiras poderiam se voltar contra eles.

Parte da cultura da Gangrena era ligada aos fanzines que eles faziam, ao ponto de muitos conhecerem mais a banda pelo material em papel. O documentário é divertidíssimo, principalmente pelas falas dos integrantes, em especial dos fundadores e vocalistas Paulão, Chorão e o ex-baterista Cid Mesquita, além é claro das múltiplas curiosidades, envolvendo até uma suposta maldição sobre quem fazia parte ou ajudava o grupo.

O documentário é pontual em matéria de carisma, deixando o espectador muito  próximo dos personagens, ao ponto de estabelecer uma intimidade entre os membros e ex-membros do Gangrena com o público. A métrica escolhida por Rick é moderna e torna toda a experiência documental bastante divertida, conseguindo assim emular bem as sensações que o Gangrena causa em seus ouvintes e fãs. Há poucos objetos de análise fílmica que acertam tanto em tom quanto esse Desagradável, sendo esse um bom pontapé para quem não conhece nada da cena de metal brazuca e o rock underground carioca, sem esquecer é claro dos fãs mais antigos, que se deliciam com todas as curiosidades absurdas que acontecem ou aconteceram com a banda.

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