Crítica | Deslembro

Filme emotivo de Flavia Castro, a mesma que realizou Diário de Uma Busca (esse também um filme sobre a época da Ditadura Militar), Deslembro é a primeira ficção em longa-metragem da cineasta, e começa mostrando uma família em colapso, a começar pelos filhos, com crianças e com a adolescente Joana, vivida por Jeanne Boudier. As crianças, que conversam normalmente em francês recebem a noticia de que vão para o Rio de Janeiro, e isso aflige especialmente a primogênita, que perdeu seu pai durante a época da repressão.

É curioso a forma que Castro escolher contar a historia. O roteiro tem tons agridoces, mistura uma abordagem via olhos infantis com o despertar da puberdade, embalados normalmente pelos clássicos da banda The Doors, cujo vocalista e principal símbolo Jim Morrison morreu bem jovem, tal qual boa parte dos reprimidos da época do regime ditatorial, entre eles, o pai de Joana, que é feito por Jesuíta Barbosa.

Durante a exibição, em todo tempo se nota um caráter e uma vontade de soar emocional e terno e o filme realmente consegue acertar muito nesses tons, sem descuidar do registro histórico. A forma como é mostrada uma família que sofreu com a perda de entes queridos durante os anos de chumbo é bastante avassalador, e nesse ponto, destacam-se Sara Antunes, que faz a mãe de Joana, uma mulher que tem uma distancia que é bem comum entre gerações que não tem tanta diferença de idade entre si, e também Eliane Giardini, que vive a vó de Joana e a mãe do rapaz que morreu. Aqui se vê uma intimidade em que o sentido gira em torno do saudosismo de quem elas perderam, e Giardini brilha demais, não só roubando a cena como fazendo uma escada para Boudier brilhar e mostrar o quanto é correta e esmerada, apesar de esse ser um dos seus primeiros grandes papeis em tela grande.

O sufoco  e a espera pela morte funcionam quase como entidades, como espíritos que assombram as mulheres e homens apresentados em tela. O clima de confessionário do destino também impera, uma vez que Joana busca tentar se culpar pelo que aconteceu ao seu pai para talvez impedir seu padrasto de seguir em uma missão que o mesmo não sabe se voltará vivo, obviamente indo para tentar empregar a revolução em um país latino americano. Aqui se repara em uma das idéias mais presentes no texto de Castro, que é a repetição de ciclos, das figuras paternas de Joana, assim como as semelhanças não só físicas, mas também emocionais e de caráter entre filha, mãe e avó.

É impressionante como Deslembro funciona perfeitamente como uma ode a ausência. As incertezas de Joana, de sua mãe e avó sobre o destino final de Guilherme/Eduardo (que tinha um nome duplo por conta dos disfarces) sobre como aconteceu sua queda e sobre a questão emocional dele ter sofrido ou não nos últimos momentos é impressionante, pois cada geração absorve isso de uma forma, e Castro traz um resultado muito bom dessa exploração emocional, pois todas fazendo sentido, e tocam a alma de quem assiste a obra.

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