[Crítica] Deus Não Está Morto

deus não está morto

Com uma música de abertura animadora e deveras otimista, a fita cristã Deus Não Está Morto se inicia, tentando resgatar a perda da fé, típica da existência humana no mundo atual. A produção dirigida por Harold Cronk – que já havia trabalhado em Contagem Regressiva, ou Jerusalem Countdown, um prelúdio para o Armageddon – busca representar esta premissa de suma importância para a parcela protestante da população estadunidense.

Após o preâmbulo, o público é apresentado ao caucasiano americano médio Josh Wheaton (Shane Harper), que acaba de chegar ao seu primeiro dia de aula e se recusa a acolher a máxima defendida por seu professor de filosofia, que obviamente toma por base os escritos de sociólogos e estudiosos. Kevin Sorbo, o Hércules da série que era exibida no SBT, dá vida ao Professor Jeffrey Radisson, que, em virtude de um gracejo de Josh, o impele a se preparar para as aulas posteriores, se munindo de argumentos para apresentar a antítese da discussão e elevando o discurso de que Deus não estaria morto.

O grave problema é que Josh quer cursar Direito, e mesmo uma nota sete seria um desastre para o estudante no percurso da própria carreira. Enquanto decide se entrará em conflito com o docente ou se concentrará na montanha de problemas típicos da classe média, uma série de acontecimentos acomete os coadjuvantes, quase sempre usando o pano de fundo religioso para explicar as diferenças culturais entre os indivíduos, mas sem conseguir arranhar muito mais do que a superfície de tais questões.

Com o desenrolar da trama, os dramas das pessoas focalizados pela câmera são piorados, com adventos de doenças incuráveis, crises de relação e outras questões deveras espinhosas, mas que são abordadas de modo raso e pouco convincente por meio de uma abordagem genérica. Até a fotografia lembra as novelas brasileiras de péssima qualidade, emulando-as até em conteúdo e forma. A iluminação chapada faz questão de provar (novamente) que o roteiro não possui qualquer nuance ou variação climática. Tudo é preto no branco e não cambiante. Falta verossimilhança na tacanha abordagem, tanto na fala de Josh quanto no proceder cinematográfico.

Até existe uma vontade do filme não ser tendencioso, especialmente quando se registram algumas mini-palestras do jovem moço emocionado. Seus olhos, que seguram um mundo de lágrimas de alguém incompreendido, não conseguem passar nada além de um discurso fácil e vazio que tenta disfarçar a falta de conteúdo com clichês técnicos, mascarando a tosquice com a qual os personagens são apresentados. Não é só a obviedade que incomoda, mas também a dificuldade de dialogar com quem pensa fora da caixa, com quem não tem por base de vida o Cristianismo. Isso não seria um grave problema; não seria maior do que qualquer situação ou discussão, mas se torna o pecado capital, já que a ideia principal da missão divina dada a Wheaton é a luz que prevaleceria sobres as trevas. No único contato daquela religião com os seus colegas de classe, e já na primeira tentativa de estabelecer essa ponte, ele falha categoricamente, sendo até motivo de troça por seu recusado mentor.

As atuações que preenchem a fita são tão caricatas que se torna praticamente impossível se importar com os pequenos dramas descritos pela lente. Nem nos folhetins mexicanos os atores são tão broncos em suas interpelações. E, pior, Deus Não Está Morto mostra-se um espécime insosso. Sequer os dramalhões açucarados conseguem ser copiados de modo satisfatório. O que se apresenta é somente um número x de polêmicas e questões sem o mínimo de aprofundamento, seja na ciência filosófica ou no texto teológico. Tampouco o público protestante é capaz de comprar sua proposta.

A necessidade de transformar todos os não cristãos em vilões de desenho animado é mais uma das muitas artimanhas malfadadas da fita. Além de ser demasiado artificial, o recurso escolhido serve para propagar um desnecessário preconceito com quem é incrédulo, em qualquer grau: ou ateu ou adepto de outras doutrinas de fé. Um elemento que pode ser considerado, no mínimo, de mal gosto, em uma análise mais taxativa através da fala fanática de repressão ao diferente, propagando uma série de estereótipos fundamentados em considerações infantis, medievais e falaciosas. Basicamente, os cristão sofrem de câncer, de humilhações, de ameaças mil, são pobres coitados, perseguidos e humilhados pelos malvados, e que têm a luz divina em seu coração, e, por isso, carentes de bondade e da boa nova – a presunção é intencional, vide a arrogância do incongruente roteiro de Hunter Dennis, Chuck Konzelman e Cary Solomon.

Logo é mostrada a motivação do Professor Radisson. Seu interesse pela profissão de educador seria causada por um trauma do passado, a perda de um ente querido, já que nenhum outro elemento poderia tirar os olhos de alguém dos desígnios do alto, nem mesmo a lógica ou o livre-arbítrio, direito que, segundo as mesmas sagradas escrituras que inspiraram os produtores, é inalienável. A apelação chega a níveis astronômicos, mostrando os problemas de relação em meio a uma família islâmica, cuja filha mais nova resolve declarar seu amor por Cristo e é alvejada pela pesada mão de seu progenitor. Em outro núcleo, o conceito de “escolhido e escolhida” é aventado com toda desfaçatez possível, fundamento discutível até mesmo no meio evangélico. É difícil imaginar que qualquer pessoa que tenha o mínimo de senso crítico consiga digerir as instruções e o sermão intolerante produzidos na fita.

A glamourização do discurso passa por tomar conceitos isolados de textos como os de Dostoiévski e Nietzsche, apoiando-se em suas carreiras irrefutáveis e em fragmentos de suas conclusões para montar um sofisma ainda maior. Uma falácia que usaria as armas dos pretensos inimigos cristãos para provar que, apesar de tudo, os preceitos conservadores e preconceituosos podem, sim, viver em meio à modernidade, utilizando uma capa de solução fácil para qualquer uma das questões de difícil resolução, uma vez que a escolha certa é finalmente colocada em prática.

Como agravante ainda há o fato de que as situações mostradas nos núcleos são essencialmente as mesmas, em conteúdo e em má composição. É tudo uma prova de fé: a base é um argumento pobre e simplista que é repetido em looping como se fosse construído para o mais ignóbil dos espectadores, relembrando-o constantemente de que a mensagem prossegue viva e a mais didática possível.

Em meio a um show gospel, onde todos os conservadores curtem juntos uma noite de luzes piscando e vidas sem pecados, no lado de fora, sem a mesma dádiva que os que lá estão, Jeffrey sofre um acidente oportuno que encaixaria um final decente para todos os envolvidos na trama. A mão de Deus pesa fortemente sobre sua cabeça, selando um destino fatal para si, mas convenientemente de reconciliação, que em última análise pode ser encarado como uma decisão arbitrária do Divino, que não aceita aqueles que não professam a fé naquele Deus. Não importa quaisquer ações de cunho polêmico, como caça a animais indefesos ou perseguição religiosa, o interessante é acreditar no ser eterno e que não está morto, uma vez que o amor dEle explode – ás vezes de modo mortífero – sobre toda a humanidade. Que o arrependimento finalmente ocorra. A intenção dos idealizadores não era obviamente banalizar a mensagem, nem desespiritualizar a temática, mas isso ocorre plenamente nos enfadonhos 112 minutos de exibição.

Nem mesmo a antiga prece de 1 Corintios 2:13-14, “as coisas espirituais se discernem espiritualmente“, serve, ao contrário do que deveria ser, pois até as ações sobrenaturais são banalizadas. O que se tira é uma máxima cruel, pontuada pela fala de um dos vazios personagens, após a morte de Radisson e as trocas de mensagens sms com o nome original do filme: “O que aconteceu aqui, hoje, é motivo de celebração. Dor, sim, só por um instante, mas agora, imagina só a alegria no céu“. O mal gosto é tanto que abre o precedente para Deus estar contente com o perecimento do professor, que teve seu castigo devido por ser malvado e negar a existência Dele. Em última análise, perpetua a maldosa comparação de Jeová com uma cruel criança que queima suas formigas com uma lupa. Após isto, é repetido o mantra, de que o Criador estaria vivo, tentando, por meio da repetição, validar o seu argumento mal concebido.

É curioso como um filme que promete a vida eterna consegue ser tão pobre de espírito.