[Crítica] Doido para Brigar… Louco para Amar

Doido para Brigar... Louco para Amar

Hollywood sempre foi louca por fórmulas, e uma das mais largamente usadas era a junção de heróis com parceiros símios. Macacos, que geravam uma interessante interação com as figuras fortes e incorruptíveis do cinema, antes eram tidos como vilões e figuras de terror — vide King Kong de 1933 — mas aos poucos ganharam a simpatia do público e dos produtores de cinema.

James Fargo, de Sem Medo da Morte e Golpe Mortal, dirige a comédia de valentões estúpidos protagonizada por Clint Eastwood 14 anos após a sua primeira parceria com Sergio Leone. Phillo Boddoe é um típico americano do sudoeste afeito a brigas descerebradas e desafios sem uma motivação maior que a pura demonstração de testosterona, e parceiro de Clyde, orangotango de estimação criado numa casinha no quintal de sua residência. A selvageria não é particularidade de Clyde, pois sua contraparte humana vive de forma quase tão silvestre quanto o animal, arrecadando dinheiro em lutas clandestinas por meio de apostas.

Mesmo ainda jovem, Clint Eastwood, quando mostrado sem camisa, mais lembra um tiozão do que um legítimo lutador. O primeiro embate carece de maior apreço e grafismo visual, e é até porco na maior parte das filmagens, fazendo da fita um protótipo do que seria os filmes-pipoca dos anos 80. E, claro, a multiplicidade de desventuras que os brucutus da próxima geração fariam entre um filme de ação arrasa-quarteirão e outro.

Eastwood já tinha uma carreira consideravelmente extensa: já havia dirigido meia dúzia de filmes até 1978, mas tal currículo não o impediu de assumir o protagonismo da comédia. O clima de filme totalmente descompromissado com a seriedade ganha contornos realistas após uma perseguição à dupla de motoqueiros escrotos que decidem ferir a honra do carismático orangotango, xingado com os nomes mais impróprios possíveis. Toda a infraestrutura montada para dar prosseguimento à vingança é atroz e totalmente impensável e faz de Clyde uma figura inteligente, dócil e até genial para os padrões de um animal… irracional. Isso se deve à sua capacidade de dirigir até um mini trator, inclusive com uma carteira de motorista de categoria E. Antes dos 30 primeiros minutos, Phillo acompanha uma dupla de motoqueiros até o lado externo de uma lanchonete e distribui sopapos, que são ouvidos dentro do estabelecimento pelos seus amigos.

Tudo transpira humor e dos mais constrangedores. A matriarca Beddoe é mostrada como uma mulher ranzinza com início de calvície na sua fronte e com o resto dos cabelos desgranhados. Os opositores, pretensos criminosos nazistas, são uma gangue de motociclistas dos mais imbecis, numa versão estúpida dos Hells Angels. As brigas de bares têm um show de barulhos quase onomatopeicos, onde até o vocalista da banda, que se apresenta no local, bate nos clientes, claro, sem interrupção da música tocada.

O personagem mais bem desenvolvido da história é o macaco de doze costelas, que, graças à ossada semelhante à humana, consegue desenvolver capacidades enormes de raciocínio, como senso de humor apurado e ironia, algo que depois seria horrorosamente copiado em Planeta dos Macacos: A Origem. Uma das lutas, filmada junto ao rosto de um dos agressores, garante até mesmo um dos mais curiosos momentos narrativos do filme.

Phillo é um anti-herói autêntico que não se importa com o politicamente correto, pois dirige enquanto bebe e carrega um animal silvestre sem as instalações necessárias para tal. Essa característica parece ser hereditária, visto que sua mãe prova toda a sua hospitalidade atirando com uma espingarda de cano longo nas motos dos arruaceiros que vêm importunar em sua propriedade. Como uma perfeita cowgirl, ela os espanta, numa cena à la Trapalhões.

O romance com Lynn Halsen Taylor (protagonizada por Sondra Locke e escalada em razão do romance com Eastwood) é instantâneo e mal resolvido. Até determinado momento da trama, parece que a única relação estável da história será entre Phillo e Clyde, com direito até à música-tema para a trajetória — talvez por isso o orangotango o agrediu no início do filme. Phillo é tão preocupado com o parceiro que até procura um amor verdadeiro da mesma espécie para o animal. Ele sai de madrugada a fim de ajudar o bicho a praticar um estupro dentro da jaula de um zoológico e Clyde não pensa duas vezes: entra no lugar e manda ver na pobre e indefesa macaquinha, não sem antes causar furor na plateia ao acenar em tom de piada para a câmera. Curioso como após o coito de Clyde, Phillo quase perde uma luta. Talvez seu baixo rendimento seja motivado por ciúmes.

O único confidente do personagem de Clint é o orangotango. Ele não se abre sequer com Orville (Geoffrey Lewis). A sua indestrutibilidade é posta à prova, mas todos que atravessam o seu caminho são absolutamente tolos, se deixando enganar pelos ardis do turrão lutador e seu macaco. Após executar perfeitamente uma armadilha, Phillo comemora levantando os braços, numa das cenas mais vergonha-alheia da carreira de Clint.

O clima de comédia-pastelão faz da fita uma obra leve. Mesmo com a briga entre o casal de personagens principais, é até engraçado se analisar a discussão de Lynn com Phillo, pois é muito parecida com o término entre Locke e Eastwood, inclusive em como a história termina. Apesar de conter um caráter de redenção, em que o protagonista se deixa vencer por um “bem maior”, é até de se surpreender que o mocinho e a mocinha não terminassem juntos no final. Apesar de todos os pesares, Doido para Brigar… Louco para Amar possui uma veia cômica que acerta em grande parte do filme, e é condizente com o cenário de comédia da época, além de ter uma trilha country das mais prolíficas e bem escolhidas.