Crítica | Dois Caras Legais

Dois Caras Legais

Embora tenham históricos profissionais bastante distintos, em Dois Caras Legais, Ryan Gosling e Russell Crowe apresentam-se uma dupla coesa, irreverente e com uma química há muito esquecida nas comédias de ação.

The Nice Guys tem um quê de irmãos Coen com um ar setentista que está bastante presente não só na trilha, fotografia e nos demais recursos técnicos, mas também na paleta temática do filme. Os dois protagonistas são investigadores que estão seguindo as pistas do desaparecimento de uma garota chamada Amélia e a morte de uma atriz pornô. Aos poucos, os casos se entrelaçam e os rivais precisam se unir para solucionar ambas as questões.

O longa, como um todo, abusa do politicamente incorreto em diversos momentos. E é curioso como isso é feito de maneira bastante honesta. Trata-se de um produto nonsense. Ou seja, aqui, esse tipo de humor é muito bem-vindo, pois fica óbvia a intenção do roteiro e da direção de rir com o outro, e não do outro. O humor americano, por vezes reduzido ao pastelão, emerge de maneira bastante funcional e de bom gosto – dentro da proposta do filme, é claro.

Gosling interpreta um pai solteiro, envolvido em problemas com alcoolismo e está muito bem no papel. Talvez, até melhor que Crowe. A verdade é que as duas personas se complementam de maneira muito agradável, mas o roteiro permite que Gosling brilhe mais. Vem do background dele, também, a personagem mais interessante, sua filha Holly, interpretada pela jovem atriz Angourie Rice. Apesar de a “criança adulta” ser um estereótipo bastante clichê, a atriz entrega uma atuação que consegue se desprender o suficiente desse lugar-comum. Seus momentos em tela funcionam como uma boa dose pueril num filme em que a pornografia está presente como pano de fundo.

Ainda é cedo para arriscar se o filme dirigido por Shane Black – que fez os sensacionais Máquina Mortífera e Beijos e Tiros e o terrível Homem de Ferro 3 – ganhará uma sequência, mas fica evidente que o roteiro trabalha na tentativa de deixar ganchos que sirvam para a construção do texto de um segundo episódio.

Os destaques negativos ficam a cargo do timing cômico, que por vezes não funcionou, e do tempo de exibição. Em determinado momento fica difícil não sentir o tempo passar arrastado, sobretudo no arco intermediário. Felizmente, o arco final compensa essa sensação dando uma acelerada no ritmo do desenvolvimento dos plots.

Dois Caras Legais dificilmente será lembrado como um filme grandioso, mas consegue alcançar o feito de misturar ação e comédia nonsense com acontecimentos críveis, o que não é nada simples. É um ponto bastante positivo na carreira cheia de altos e baixos do diretor.

Texto de autoria Marlon Eduardo Faria.