Cinema

[Crítica] Donnie Darko (2)

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A perturbação mental de Donnie Darko já é anunciada por elementos que não são verbais. A música de Michael Andrews ajuda a criar uma atmosfera que junto a câmera de Richard Kelly e a fotografia escurecida de Steven Poster, formam um ambiente escuro, dúbio, cuja moral não é exatamente normativa. A entrega de Jake Gylenhaal para o papel título é total, já demonstrando nas primeiras interações com outras pessoas uma extrema misantropia e falta de preocupação com qualquer opinião que não seja a sua.

Donald tem surtos durante a noite, fato que o faz vagar pela cidade quando deveria estar dormindo. Sua reação é sempre passiva agressiva com os que o cercam, em especial sua família, que é a versão clássica do modo de vida americano, conservadora. Graças ao quadro clínico de esquizofrenia, o rapaz toma remédios tarja preta, fato que ajuda a entender seu comportamento indócil e as fugas/saídas noturnas. Sua vida é cortada por um canto sedutor, passando a estabelecer contato com um homem fantasiado de coelho – chamado de Frank - que o faz se afastar da casa assim que ocorre o acidente com a turbina de avião que cai misteriosamente sobre seu quarto.

O protagonista é o tempo tratado como louco, mas o ambiente que o cerca também não é exatamente o mais saudável do mundo. Quando a câmera passa pelos corredores da escola, a música de Andrews mais uma vez toca acompanhada de um slow motion típico dos clipes da MTV, mostrando que os colegas de Darko se utilizam de cocaína e outras drogas mesmo em ambiente escolar.

O filme se localiza no final dos anos oitenta (1988) e a falta de paciência de Donnie com tudo e todos que o cercam combina bastante com a virada cultural ocorrido pelos idos de 1990, onde até a música se tornou mais crua. Darko não tem um visual gótico, até porque suas companhias não são exatamente assim e faltava-lhe referência para abraçar o estilo, mas sua postura encurvada, olhar longínquo e decepção total com a humanidade o faz parecer assim. A única pessoa que parece romper com isso é o interesse romântico, que tem como avatar Gretchen Ross (Jena Malone), uma moça bonita e tão tímida quanto ele. O roteiro de Kelly usa muito bem os arquétipos que tem em mão, tornando o drama universal apesar do largo uso de personagens pasteurizados, que dão ao espectador a mesma sensação de tédio que o perturbado jovem tem.

A percepção de uma outra dimensão, não alcançada por praticamente ninguém e que se ocorre quando o tal coelho reaparece une em semelhança o filme de Richard Kelly com o clássico de Stephen King, Carrie - A Estranha, principalmente pela interferência paranormal (ao menos aparentemente) que ocorre quando o menino inunda a escola, mesmo sem sair de sua casa, a quilômetro de distância do local. O interesse do menino em relação a discussões sobre viagens no tempo, fazendo-o estudar o livro de Roberta Sparrow (Patience Phillips), chamado a Filosofia da Viagem no Tempo, que era vizinha dos Darkos, e apelidada de Vovó Morte.

As discussões estabelecidas entre o personagem principal e o professor Jim Cunningham (Patrick Swayze, em um dos seus últimos bons papeis) resumem muito bem o niilismo da película, uma vez que coloca em perspectiva uma juventude problemática e frustrada contra o pensamento simplista que a literatura de auto ajuda tanto louva. É bizarro como mundos tão díspares convivem no mesmo espaço e lugar, reunindo perfis de junkies na escola e adultos suburbanos completamente caretas.

A trilha sonora faz o filme se tornar um pouco datado, especialmente por ele ter se tornado um fenômeno de popularidade e ter tido as músicas executadas em diversos programas e festas que ocorriam no início da década de 2000. Há uma versão do diretor para Donnie Darko, mas a maior parte das novas cenas são dispensáveis, uma vez que ela tencionam explicar os mistérios por trás dos momentos mais viajandões do corte original feito para o cinema, em um movimento completamente oposto no visto dentro da versão de Ridley Scott para Blade Runner. Vale somente pelas inserções do livro de Sparrow e mesmo assim a sensação é que o ônus é muito maior que o bônus.

Uma das maiores discussões a respeito do clássico instantâneo que é Donnie Darko é se as visões com Frank são manifestações da insanidade do jovem rapaz ou se elas ocorrem com ele graças a uma suscetibilidade provinda desse quadro clínico. A crença de que essa capacidade de andar por linhas temporais diversas provém do Deus entra em contradição com os dizeres bíblicos/cristão, de que o Criador só dá aos seus filhos provações que os mesmos podem suportar, já que para Donnie, perceber a chegada do fatídico e conviver com o destino que recai sobre ele é demasiado pesado, fazendo até sentido a escolha do mesmo, próximo do final.

Donnie Darko é um filme que ganhou uma popularidade tardia, quando entrou no circuito de home vídeo, especialmente graças ao fator replay, uma vez que possuem detalhes muito ricos em seu texto, e que tendem a ser melhor absorvidos depois de uma revisão. Apesar de o tema paradoxo temporal possuir em si uma discussão válida e bem rica, mas a mensagem mais interessante certamente é a da visão do protagonista sobre aqueles que habitam sua cidade, desdenhando da mediocridade tipicamente suburbana e dos subterfúgios hipócritas que o homem comum usa.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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