Cinema

Crítica | Dragon Ball Evolution

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Em 2009, um sonho estava prestes a se realizar para todos os fãs de Dragon Ball: o lançamento do filme em live-action oficial, chamado Dragon Ball Evolution. Cercado por expectativas grandes, a direção coube a James Wong, diretor responsável pelo terror chiclete Premonição e pelo bom filme americano de Jet Li, O Confronto. A mitologia do anime/mangá já é modificada em seu início, ao mostrar que Piccolo foi aprisionado séculos atrás por uma técnica chamado Mafuba e tinha como capanga um macaco gigante chamado Oozaru.

Não demora até aparecer seu protagonista, vivido por Justin Chatwin, um rapaz  (de aproximadamente 26 anos) que vivia na cidade, frequentava a escola, sofria bullying e treinava com seu avô, Son Gohan (Randall Duk Kim), esse sim com uma aparência japonesa. Ora, por mais que se reclame, Goku não precisaria ter feições japonesas, pois tecnicamente é um alienígena, mas na história original, geraria estranheza se não o fosse. Como aqui ele está na América, tudo certo, ao menos aparentemente.

Goku é mostrado como um garoto comum, apaixonado pela garota bonita da escola, Chichi (Jamie Chung), muito diferente do menino eremita que durante muitos anos de sua vida só teve contato com seu avô, não só no fato de ser antissocial e não adepto de algumas normas comuns ao contrato social, mas também de não se deixar intimidar. O modo como ele encontra para se aproximar de sua amada, é utilizar suas habilidades de ki para abrir todos os armários da escola ao mesmo tempo, em um exibicionismo fora das lutas que fere qualquer código de ética de arte marcial.

Talvez o único senão positivo do filme, indiscutivelmente, sejam os designs das esferas do dragão. As bolas alaranjadas tem seu número de estrelas flutuante ao longo de sua circunferência, para que qualquer pessoa possa ver de qual esfera se trata. Elas parecem emanar um poder mesmo distantes umas das outras e essa sempre foi a impressão que o anime passou desde a primeira vez que foi exibido no Brasil pelo canal SBT.

Mas logo essa sensação boa é cortada, para mostrar a ida do protagonista como penetra na festividade de Chichi, onde ele exibe suas esquivas em slow motion contra o bully Carey Fuller (Texas Battle), o mesmo que namora a moça. Há alguns detalhes legais nesse momento, como a festa ser num castelo, referenciando o lar do Rei Cutelo e da pequena Chichi na fase clássica do desenho, e as referências à lua cheia, ainda que Goku não tenha rabo e não possa se transformar em um macaco gigante assassino.

A personificação de Goku não é falha só por conta dele não ser um capiau sem noção do que é a vida, mas também por seu visual. Seu cabelo emplastado de gel faz ele parecer mais um dos coadjuvantes desimportantes de séries da CW como Arrow e The Flash, já que se enquadra no padrão de rapaz descoladinho que circula nesse tipo de série, mas não bem arrumado o suficiente para estar no elenco principal, que normalmente é ocupado por atores e atrizes de corpos esculturais, mas completamente inexpressivos. Chatwin consegue ficar no limbo entre as duas características, já que não se trata de um sujeito de beleza indiscutível, assim como também não é um mal ator, aliás ele normalmente se apresenta bem nos seriados que faz, o problema aqui é claramente o roteiro.

A libertação de Piccolo do feitiço que o prendia não é muito bem explicada, aliás falta nexo nessa sequência. Desse modo, Goku se vê obrigado a ir até o antigo mestre de Gohan para avisá-lo. Nesse ínterim ele encontra a bela Bulma (Emmy Rossum) que é a personagem mais parecida com a original, apesar de obviamente não ter feições típicas de uma asiática. A casa de Kame também não é localizada numa ilha no meio do oceano e sim no meio da cidade. Aqui também se vê um dos poucos pontos legais no filme, que é a forma que uma das motos de Bulma sai de dentro da cápsula, mas esse momento dura poucos segundos, e logo os preciosismos do roteiro de Ben Ramsey voltam, basicamente pondo o nada carismático Goku para lidar com o Kame, de Chow Yun Fat. Aqui, ele é chamado de Roshi (como normalmente é chamado nas animações nos Estados Unidos), e apesar da personalidade magnética de Fat, ele faz lembrar pouco o personagem original, ainda que este não seja exatamente um problema, já que o filme comete erros muito mais grotescos em torno dos seus 85 minutos.

Ao menos o lado tarado de Kame é diminuído, ele é só um onanista que coleciona pornografia e não um homem que tenta bolinar toda garota que aparece. Impressionantemente cada vez que o texto acerta algo, ele logo faz questão em esquecer disso e trazer mais um caso grotesco à baila. Goku quanto toca as esferas mágicas sente uma premonição, e isso não faz sentido algum seja em qual versão do mito isso foi inspirado.

Perde-se um tempo demasiado tentando fazer dois casais acontecerem, Bulma e Yamcha (Joon Park) e Goku e Chichi. Enquanto isso, Piccolo, vivido por James  Marsters, manda sua capanga Mai (Eriko Tamura) em busca das esferas do dragão. A hora do combate entre as forças do bem e do mal se aproxima, em eventos anti-climáticos. A maior parte do visual simplesmente não encaixa. A parte dos efeitos especiais e das rajadas de poder lançadas ficam extremamente genéricas, não tem nem charme nem semelhanças com o que se vê nas versões animadas. Até Matrix Revolutions tem mais em comum com a obra do Toriyama do que com este, nas lutas entre Senhor Smith e Neo.

A luta contra Piccolo é totalmente anti climática, e a convocação a Shenlong é feito de um modo também nada inspirador ou digno de nota. O dragão é uma presença dourada, digna de Dragon Ball O Início da Magia, mas sem muita preocupação em parecer uma adaptação de Dragon Ball. O problema aqui claramente é de espírito, Dragon Ball Evolution pouco ou praticamente nada do material original, e aparenta ser só uma produção caça níqueis, feita a toque de caixa e sem preocupação alguma com o corpo enorme de fãs que a saga tem pelo mundo. É uma produção sem alma, ambiciosa e que acerta muito pouco, tanto no quesito adaptação quanto no quesito cinema, uma vez que nem as atuações (e isso inclui até Fat) não convencem, tampouco as sequências de ação. O filme ainda tem a pachorra de ter um final em aberto, com uma cena pós credito  das mais safadas, com um cliffhanger muito oportunista.

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Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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