[Crítica] Dromedário no Asfalto

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Dirigindo um road movie gaúcho, o estreante em longas-metragens Gilson Vargas apresenta em Dromedário no Asfalto o drama de Pedro (Marcos Contreras), um sujeito aparentemente sem perspectivas, que poetiza sua posição de andarilho e caroneiro e que tem como companhia seus próprios pensamentos sobre a existência sem rumos definidos, uma realidade que grande parte da humanidade caminha atualmente.

A contemplação das paisagens naturais remete a pequenês do homem diante da natureza, como Terrence Malick insiste tanto em mostrar, como em seu filme Árvore da Vida, no qual apela muito mais ao abstrato do que o cinema de Vargas. As discussões internas do homem ganham eco através dos diálogos com desconhecidos, uma estranha intimidade baseada na cumplicidade estabelecida entre pessoas que nunca se viram.

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Apesar de não perder tempo explicando experiências prévias, é fácil notar na atitude do ser que protagoniza o longa uma sequência de hábitos e atitudes que formam um padrão comportamental. Mesmo quando está cercado de outras pessoas, em ambientes sociais lotados, Pedro age de modo recluso, como se a aproximação de qualquer corpo ou alma tivesse o poder de encerrar sua liberdade ou fazê-lo encarar necessariamente seus medos e traumas. Curiosamente, o estilo de filme de estrada é comprovado em cenários internos diversificados, uma vez que o narrador não tem um veículo próprio, mostrando mais uma faceta da confusão mental e o fato de não ter posses como parte integrante da identidade do sujeito. Em uma sociedade que se baseia no “ter”, ele nada oferece, uma vez que não são os bens que determinam quem ele é, por ser esta questão de identidade sua principal busca.

A passagem pelas estações estrangeiras faz o personagem ficar mais à vontade, como se a forçada ausência de diálogo provocada pela língua que não conhece fizesse-o sentir-se em casa, sem necessidade de dar satisfação a quem quer que seja, emulando assim o conforto que sentia da parente que lhe foi tirada pelo cruel destino que o fez órfão. Nos poucos momentos em que Pedro sorri, nota-se claramente que as sensações são de regressão, relembrando o costume tipicamente adolescente de lançar mão de psicotrópicos aleatórios em busca unicamente de fugir das sensações comuns e cotidianas, já que é a rotina que o oprime.

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A universalidade do tema compreende não só a perda no campo sentimental, como também qualquer outro tipo de lacuna emotiva que meramente se assemelhe a carência. O dromedário do título é facilmente associado a Pedro, que, como o animal, carrega na coluna um peso excessivo, tendo por hábito remoer dramas mal digeridos.

O retorno ao seu lugar de origem vai se aproximando junto ao desfecho do longa, que narrativamente combina com a extinção da estrada do andarilho. As perguntas que ele buscava responder não necessariamente foram contempladas com convenientes resoluções. O retorno da voz interior, descrevendo os passos do homem, faz mostrar que mais indagações surgiram, uma vez que a normalidade antes aventada jamais retornará, já que a única coisa que sobrou foram as lembranças e a falta de quem não está mais lá.

A busca não encontrou um final feliz exatamente por ser impossível preencher o vazio deixado pelo ente que partiu. No campo das ideias, em forma de sonho, há um rompimento com a realidade, evocando fantasias existenciais que deixam dúbia a mensagem final do roteiro carregado de metáforas de Gilson Vargas, que, como em seu curta O Relâmpago e a Febre, também estabelece um belo diálogo com clássicos do cinema sul-rio-grandense. A trilha dos créditos finais, com É Preciso Dar Um Jeito de Erasmo Carlos, fecha o ciclo de modo singelo, recontando a necessidade de encerrar ciclos para criar novas perspectivas de vida com a espontaneidade do caráter de outrem, já que a alma centralizada pela câmera nada tem a oferecer, a não ser dor e amargor.