Critica | El Mariachi

Muitas lendas envolvem a feitoria do filme de “estreia” de Robert Rodríguez, El Mariachi, e sua presença na cultura pop que abriu não só as portas para seu diretor e autor, como trouxe também duas continuações e uma novela no México. As primeiras cenas do longa são quase artesanais, onde a câmera passeia pelos cenários improvisados, dando um ar de sofisticação ao elenco de atores amadores e ressignificando o que poderia ser apenas uma cena de abertura de um filme b genérico.

Não há muita novidade no inicio da historia, o combate entre forças, dentro de uma prisão com pessoas pobres enfrentando pessoas pobres a mando de uma magnata é uma trama velha como o mundo, tipica das series que passavam nas matinês nos cinemas, alem de reunir elementos básicos de filmes de western, sobretudo os italianos de Sergio Leone e Gianfranco Parolini, emulando os ângulos de câmera dessa escola.

Dois herois do bang bang a italiana, Sabata- O Justiceiro, dirigido por Parolini e interpretado por Lee Van Cleef, que acompanha um homem ja idoso que faz justiça com as próprias mãos em troca de recompensas, e claro, o Django, criação de Sergio Corbucci (que dedicaria sua carreira a fazer filmes de faroestes sobre o México no oeste selvagem) e interpretado por Franco Nero. Django carregava um misterioso caixão que escondia um caixão, assim como ocorre com o Mariachi de Carlos Gallardo, que carrega um case de violão, que em.determinado ponto da trama, deixa de ser o receptáculo de seu instrumento para guardar as mensageiras da morte: as armas.

Se estabelece no começo uma rivalidade entre Mauricio Moco (Peter Marquadt) o poderoso bandido, e Azul (Reinol Martinez), com o segundo correndo atrás do primeiro, deixando um rastro de sangue com os fluidos dos capangas. A trilha de homocídios vai piorando com o tempo, e os caminhos de Azul e do violeiro são confundidos, tudo por conta da caixa instrumental.

Os elementos visuais se misturam de modo curioso, a começar pela figura da tartaruga na estrada, que vive no imaginário do musicista apos cruzar com ele no asfalto quente, sendo esse o primeiro dos sinais oníricos e meio fantasiosos dele, e o segundo o modo meio novelesco com que as cenas são conduzidas por Rodriguez. Os movimentos de câmera são muito rápidos e acompanhados de gritos dão fazem variar as sensações, entre desespero, receio da morte e total impotência de quem não habita o cenário do crime, por perceber-se fraco e incompetente diante das forças criminosas.

Os momentos mais ricos do filme são os oníricos, onde o Mariachi tem visões com crianças e presságios de que a morte se aproxima. A confusão que acontece entre ele a identidade de Azul faz ele despertar o conjunto de habilidades até então desconhecidos, ou talvez ele ja tivesse habilidade de fuga impar, de qualquer forma ele parece ser predestinado a algo maior, e mesmo acontecimentos básicos, como quando conhece a bela Dominó (Consuelo Gómez) parecem capitulos importantes da jornada de um heroi que não pediu para ser assim.

Chega a ser engraçado o modo como Azul vive, seus esconderijos não possuem luxos, as camas são apenas colchões largados no chão, e ele dorme com três mulheres ao mesmo tempo. O roteiro se vale de muitos atalhos para mostrar o caráter de seus personagens. Mesmo Moco, um homem abastado só tem mostrado o lado externo de sua mansão, com uma pequena piscina, onde uma bela mulher de biquíni serve seus drinques, tudo isso fruto do baixo orçamento que Rodriguez tinha para fazer sua obra. Nao falta inventividade ao contar sua historia.

Os figurinos claramente são dos interpretes – ou pensados para parecerem – e as cenas das pessoas pegando o telefone e mostradas de maneira acelerada dão um charme artesanal ao filme, que fortifica a ideia de que os maiores e mais indiscutíveis méritos do longa são de seu realizado.

A estrutura do roteiro brinca demais com a completa falta de talento de seus personagens para manterem-se vivos. Toda a cartilha do bom herói é rasgada, o Mariachi é um acéfalo, um burro com sorte que sempre sai a rua despreparado, Dominó não sabe agir como garota refém subvertendo o clichê inclusive, Azul não é sutil e não consegue jamais deixar de parecer ameaçador, os capangas são burros e Moco é o chefão do crime mais telegrafado possível, tão inconveniente e inconsequente que usa as pessoas para riscar seus fósforos que acendem seus cigarros.

O combate final lembra os momentos finais do Scarface de Brian de Palma, e seriam reprisados não só nas continuações mas também em outros filmes de Rodriguez, como Machete, claro, com outras ressignificações. Antes do protagonista reaparecer há uma demonstração cabal das diferenças morais entre Moco e Azul, com um mostrando ter coração e no outro restando apenas um autoritarismo baseado em nada.

A cidade que parecia trazer sorte a ele trouxe só azar e agouro, o final trágico de El Mariachi marca a rotina do personagem-titulo de maneira irreparável, mudando toda a.l configuração de seus futuros trabalhos como musico, causando sacrifícios em seu coração e mudando o que seria seu caráter apos todos os acontecimentos. É discutível o que teria atraído o que, se o drama acompanhou o baladeiro ou se o imã era essa historia dignas das serestas feitas pelas bandas mexicanas, uma vez que todas as pessoas tiveram suas vidas radicalmente modificadas, inclusive o exercito de Moco, que se mostrou nada grato as ordens terríveis a que se submetiam. Mesmo em seus moralismos bobos Rodriguez acerta, fazendo desse um conto moderno sobre a vida e a morte, sem deixar as tradições de seu próprio povo de lado.

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