Crítica | Ele Está de Volta

David Wnendt conduz o filme que começa com uma conversa informal, entre homem que lembra muito o fuhrer e Thomas Koppl, um professor e membro de um clube de etiqueta, gravado o encontro entre eles semelhante aos mockumentários que Sacha Baron Cohen protagonizava. O professor não sabe muito bem como lidar com a pessoa que conversa consigo, e o tempo todo segura o riso, sem ter muito por onde estravasar a graça que sente ao ter uma conversa tão direta com essa estranha figura. Ele Está de Volta adapta o livro homônimo e de Titus Vermes e por mais que brinque com uma situação impossível, carrega muita verdade em si.

Oliver Masucci desperta como Adolf Hitler próximo do bunker onde teria perecido, há sete décadas e seu estranhamento com o povo persiste, porque eles não o tratam com o mesmo cumprimento de antes. Aos poucos ele se ambienta aos novos tempos, descobrindo pessoas que simpatizam com seu discurso, apesar de isso ser claramente reprovável.

Um dos lamentos de Adolf é que lideranças de esquerda tomaram o poder na Alemanha, entre elas, Angela Merkel que em contraponto a sua postura é praticamente de extrema esquerda dado o autoritarismo direitista que impôs quando foi soberano. Uma das suas posturas mais engraçadas acontece quando vai ao campo tentar falar com um homem comum e se estressa com um cachorro, acertando ele com um revolver, de maneira brutal e impulsiva, demonstrando sua crueldade e falta de tato de maneira cômica, mas ainda assim tangível.

Hitler é tratado pela maioria das pessoas como um humorista que quer provar um ponto, e boa parte do público acha cômico o que ele fala, de tão absurdo que soa e algumas parecem anestesiadas mesmo. Há um momento curioso dentro do longa, onde são mostrados reviews de youtubers sobre ele, mostrando quais eram os reais formadores de opinião em 2015 que repercutiam o que se falava em veículo de comunicação em massa, e alguns achavam que essas posturas eram inofensivas e outros eram taxativos, falando que a situação dos imigrantes deveria tornar proibitivo uma imitação dessa forma. Certamente esse filme só teria o impacto que tem graças a época em que foi lançado, já que ele chegou aos cinemas em 2015 e após o Brexit e outras atitudes reacionárias que permearam a política global.

Tal qual ocorre na realidade tangível e política atual, quando o sujeito ganha popularidade, pessoas gananciosas tentam retirar daquela situação o máximo de dinheiro possível, vendendo direitos para um filme ser feito, estrelando a figura histórica que deveria ser somente execrada e retirada a possibilidade de discursar para muitas pessoas e esse tipo de comércio provoca o ódio de grupos neo nazistas, que resolvem ser violentos com ele, primeiro por conta de acharem que ele é um impostor, segundo por acreditarem que ele teria responsabilidade com o país e deveria trabalhar para implementar novamente o nazi-fascismo.

A recepção da parte da população declaradamente liberal e pequeno burguesa ao suposto comediante é muito amistosa, e o apoio ocorre porque lhes é conveniente, o governo autoritário, extremista e segregador pode ser um campo bom para os negócios, uma forma fácil de lucrar e esse oportunismo é bem explorado por Wnendt, especialmente em seu final, que mostra a espetacularização da violência e a valorização do discurso fascista, que resulta no retorno de uma figura que aparentemente muitos odeiam, mas que representa boa parte dos princípio e preceitos defendidos por uma parcela considerável da população e ignorado por tantas outras, que subestimam a capacidade. Até a questão de tratar toda a trama como humorística é quebrada nas cenas pós crédito, mostrando como seria se o fuhrer realmente tivesse voltado, utilizando os fatos reais recentes como pano de fundo para mostrar o avanço do personagem fictício para a nossa realidade, mas que encontra ecos inclusive na política do Brasil. Ele Está de Volta hoje ganha ares proféticos e obviamente faz preocupar com o futuro que a humanidade reserva a si ao idolatrar figuras de ódio.

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