Crítica | Em Busca De Fellini

Taron Extar é  o condutor do drama Em Busca de Fellini, que coloca a personagem Lucy Cunningham, de Ksenia Solo para ter sua vida narrada. Sua intimidade era peculiar, ela vivia seus dias sem perspectivas, até que ocorre um pequeno drama familiar e ela fica desolada. Em meio a sua solidão, ela percebe uma mostra chamada Tutto Fellini, onde assiste A Estrada da Vida, com Anthony Quinn e com a musa do diretor italiano, Giulietta Masina. Depois disso, ela arranja as fitas cassetes da filmografia do sujeito e decide tentar encontrá-lo, fazendo uma ligação interurbana para a Itália, conseguindo surpreendentemente espaço na agenda do cineasta.

Essa é a estréia de Extar em longas metragens, e já começa reverenciando um cinema bem diferente do seu. A condução do drama da menina de vinte anos tem pouco a ver com todo o neorrealismo pregado na arte de Federico Fellini. A jornada que começa com a decisão de deixar sua mãe, Claire (Maria Bello) na América enquanto ela se aventura pela Europa e toda sua trajetória na capital italiana é feita de uma maneira genérica e bem comum a diversas comédias românticas, seguindo literalmente as comuns etapas da jornada que Joseph Campbell pensou em O Herói de Mil Faces.

Lucy precisa de distanciar de casa, da sua zona de conforto e do lugar onde é super protegida e o centro das atenções para finalmente descobrir o sentido de sua própria vida. Nada de extraordinário ocorre com ela, e nesse ponto, a história dela se cruza com Os Boas Vidas, Noites de Cabíria, o segmento que coube a Fellini em Bocaccio 70 e obviamente A Estrada da Vida. A semelhança com essa parte inicial não faz fugir da pecha de ordinário, afinal essa fase mais pés no chão de Fellini tem ótimos momentos – e que não são reprisados nesse – tem esse caráter basicamente por refletir o senso comum do cinema e do seu tempo, assim como também reproduz boa parte do cinema sentimentalóide recente.

De certa forma, Lucy encarna um pouco dos papéis iniciais de Masina, da moça comum e deslumbrada com a vida e com tudo de belo e poético que se apresenta a si, ainda que a mesma claramente não tenha inteligência emocional ou repertório para encarar aquilo tudo em sua plenitude. Tal situação serve de paralelo também para o filme, uma vez que ele é redondo, bonito, singelo mas não é capa de ser tão complexo quanto os objetos de análise da filmografia mais inspirada do grande mentiroso que era Federico.

Acompanhe-nos pelo Twitter e Instagram, curta a fanpage Vortex Cultural no Facebook, e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.