Crítica | Em Nome da América

Em Nome da América é um exemplar documental do cinema de denúncia. Sua motivação é investigar os detalhes de um grupo de norte-americanos, que vieram ao Brasil como voluntários, através da organização Peace Corps (Corpos da Paz), e que chegaram ao Brasil em meio a década de 1960, durante o governo do democrata John F. Keneddy, enquanto por aqui o início do período militar estava em ebulição.

O diretor Fernando Weller usa depoimentos de estadunidenses, na atualidade, para mostrar a terrível situação que o povo sofria, e as contradições deles serem enviados para um país que buscava alternativas mais humanitárias mas que também não fez qualquer esforço para se manter o estado democrático de direito, acabando por depor um presidente democraticamente eleito com o apoio desse mesmo EUA. Levando em conta o lançamento nos cinemas de circuito, é curioso e até catártico o fato do filme vir à público pouco antes das revelações de documentos que comprovam que o governo Geisel torturou e matou boa parte de seus adversários.

Os Corpos da da Paz representavam uma parcela do governo de JFK que visava civilizar o continente da América Latina. As contradições entre a boa vontade dos jovens e as ações imperialistas são novamente analisadas aqui, como foi no documentário colombiano The Foreigners, filme esse que foi encomendado pelos voluntários da paz que estavam na Colômbia.

Tomando isso como ponto de partida, a maioria dos entrevistados explicita sem qualquer pudor que o golpe de 64 só conseguiu se firmar por conta da paranoia do governo dos Estados Unidos, de que poderia haver a partir do Brasil algumas células comunistas, daí fortalecer o poderio das igrejas locais era importante, pois seriam elas que bateriam de frente com as ligas camponesas que lutavam por melhores condições de trabalho no campo. Esse tipo de intervenção era comum em outros países, mas sempre foi encarada como teoria da conspiração por muitos brasileiros até pouco tempo atrás.

A leitura que Weller traz ao seu filme é bastante sóbria, sem medo de tomar partido, uma vez que é bem clara a intenção dos Estados Unidos de apoiar as ditaduras latinas, a fim de tentar frear a possibilidade do socialismo surgir em território latino americano, como aconteceu em Cuba, fato que claramente não faz sentido, visto todos os estudos feitos anteriores, inclusive em documentários como Jango, de Silvio Tendler, já que o governo de João Goulart nunca teve ou esboçou essa alternativa revolucionária. Em Nome da América traz um excelente estudo que complementa outros documentários realizados após a abertura do regime militar.

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